domingo, 20 de maio de 2018

Bartolomeu e os felinos


Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram

História de uma gata – Chico Buarque de Holanda

Bartolomeu era do tempo que cachorro não era pet, era cachorro, e costumava ser chamado de Lulu, Bilu, Duque, Totó, e de outros nomes reservados aos cães. Tempo que seria um sacrilégio chamá-los pelo nome de gente, como, por exemplo, Bartolomeu, fato de que ele já tivera conhecimento. Quando criança também ele teve o seu, Lulu, um peludo marrom e branco muito bonito. A época não havia essa coisa de raças, e cães eram apenas os que tinham donos e os de rua, abandonados. Os primeiros eram classificados de duas maneiras: os bem cuidados – lavados de vez em quando e com poucas pulgas – e os descuidados – que nunca eram banhados e viviam repletos de pulgas. Banho costumava ser no tanque para os pequenos, e na mangueira para os grandes.

Em quase todas as casas havia um cão solto no quintal, que dormia fora de casa, com a finalidade de guardar, ainda que apenas latindo para estranhos. Tinham coleira para que pudessem ser presos a cabos ou correntes, mas não para serem conduzidos nas ruas com o que hoje chamam de guia. Eram poucos os chamados “cachorrinhos de madame”: pequinês e poodle, na maioria das vezes. Chatos, chatíssimos. Também não existia petshop, ração, shampoo, e muito menos brinquedos, utensílios e roupas para cachorros. Viviam dos restos da comida das pessoas da casa ou, na melhor das hipóteses, de alguma feita para eles – arroz quebrado, carne de segunda moída e osso. Veterinários entravam em ação apenas quando de grandes acidentes ou de doenças que não se curavam espontaneamente com o passar de poucos dias.

Foi e continuava sendo difícil para ele se acostumar com a ideia de programas de TV específicos para donos de cães, de uma imensa variedade de rações, complementos alimentares em maior quantidade e preço do que para humanos, roupas, desfiles caninos, e um monte de raças, cuja preferência dependia da moda em vigor: a raça canina do momento. Achou adequada a lei que pune maus tratos aos animais, mas não entendeu quando lhe falaram sobre adoção responsável, isto é, sobre o fato de quem resolve adotar um cão ter que assinar um termo de responsabilidade.

- Puxa! Estão adotando criança?

Em seu tempo as pessoas doavam ou matavam as crias. Saia-se perguntando quem queria um filhote. Como preferiam os machos, as fêmeas costumavam ir para o sacrifício. Era assim, mas ele não cogitava contar isso para ninguém, nem em caráter de curiosidade, na certeza de que seria olhado como um monstro. Já não duvidava de mais nada no tempo do politicamente correto. Mas era assim, e a ninguém ocorria, no passado, que pudesse ser de outra forma.

Também praticou, na infância e parte da adolescência, a caça e engaiolamento de pássaros. Fez até viveiro com alguns pedaços de madeira, telhas e tela fina de arame, onde guardava os pássaros que caçava com alçapão. Coleirinhas, sabiás, pintassilgos, bicos-de-lacre, canários da terra e tantos outros que revoavam os terrenos baldios dos bairros periféricos. Sim, e aos montes. Como muita gente criava pássaros, era fácil encontrar para compra sementes de alpiste, painço, girassol e cânhamo. Cânhamo, soube-se depois, era semente de maconha, e foi retirado do mercado.

- Ah, vai ver que era por isso que o pássaro cantava, lhe ocorreu.

Mesmo assim, deu razão aos que criaram a lei que proibiu a captura e comercialização de animais silvestres. De fato, para que prender pássaros? Pássaros, aliás, que não mais se encontravam aos bandos nem mesmo nos campos das cidades do interior. Adquiriu o que se pode modernamente chamar de consciência ecológica, a ponto de não ter migrado – como muitos fizeram – para os pássaros importados e criados em cativeiro. Não fazia proselitismo sobre isso, pois não se orgulhava do passado, embora a época não fosse crime e nem mesmo contravenção. Era prática cultural.

Já teve até mesmo peixes decorativos, daqueles vermelhos barrigudinhos, e isso antes do surgimento de aquários industrializados, termostatos, oxigenadores, etc. Fazia o próprio aquário em garrafão transparente de vidro, enchendo de água até onde pretendia fazer o corte, passando nessa linha d´água uma cordinha ou barbante grosso, depois encharcado de álcool, e finalmente incendiado. Corte perfeito. O acabamento era feito com lixa de ferro e pequeno toco de madeira.

Em resumo, gostava de bichinhos.

De todos? Não! Dentre os domésticos nunca gostou de gatos. Nunca teve nenhum. Talvez por ter sido convencido desde a infância que se trata de bicho traiçoeiro, ladrão, que não se apega ao dono, que é oportunista e outras característica que tendem a desvalorizar os bichanos, principalmente os pretos. Enquanto os cães eram santificados, os gatos eram demonizados. Além disso, para quem gostou de pássaros e peixes, gatos sempre foram considerados inimigos.

Fato é que gostava de bichos, e os bichos dele. Devia passar aos bichinhos alguma sensação de segurança. Cães se aproximavam e abanavam o rabo quando com ele cruzavam nas calçadas. Alguns o acompanhavam. Até gatos já haviam acompanhado. De qualquer forma, não se interessou por nenhum desde que passou a morar só.

- Bicho prende, dá despesas e trabalho, dizia.

Os infortúnios da vida fizeram com que fosse morar em um quarto e banheiro, dentro de um conjunto geminado de aposentos iguais, em um cortiço em bairro horizontalizado, de classe média, em próspera cidade-dormitório vizinha à capital. Cortiço em bairro de classe média? Sim! Bairro antigo, formado por terrenos de grandes medidas, onde os moradores fizeram boas casas na frente, e mais tarde aproveitaram o espaçoso quintal para transformar em cortiços. Abrigavam migrantes, na imensa maioria provenientes do Nordeste, e agora ele, talvez o único paulista branco e que morava só, em meio a vizinhos que se apinhavam nos pequenos “conjugados” com filhos, não raro irmãos, pais e agregados, mas a ninguém tinha ocorrido, até então, a ideia de ali se criar algum bicho. Nem tartaruga. Já tinha gente demais. Desavisados que transitassem pelo bairro jamais imaginariam a existência desse lado oculto, que aos poucos descobriu-se não ser nada pequeno. Descobriu-se quem, pagando aluguel de quinhentos reais por mês para ali se alojar com mulher e dois filhos, alugava por cem reais mensais uma cama com direito a banho e uso do tanque para desconhecido, normalmente também recém-chegado do Nordeste. O pobre explorando o miserável. E não se trata de favela.

Um bairro repleto de cães bem tratados, que estavam nos quintais e caminhando pelas ruas relativamente tranquilas, com ou sem guias e donos. Havia inclusive um cão branquinho, pernalta e magro, que ficava o dia todo deitado em frente ao portão de frente de um sobrado próximo. Não se mexia nem mesmo com a passagem de transeuntes que costumavam brincar com ele. Casualmente Bartolomeu encontrou de passagem o morador que saia do sobrado e perguntou se o cão lhe pertencia. Disse que não, que nem mesmo sabia de quem era, mas que ficava o dia todo esperando que a cadelinha dele viesse para a frente da casa.

- Um cachorro apaixonado. Só faltava essa.

Até mesmo os poucos moradores de rua que moravam na praça tinham seus cães. Dentro das circunstâncias, podia-se dizer que bem cuidados, bem alimentados e limpos. Contava o dono da padaria que o povo de rua pedia comida, e quando a ganhava dividia ou cedia aos cães. Primeiro os cães, e depois eles, os desabrigados. Juntavam moedas para seus cães fossem atendidos pela veterinária do bairro, e não eram poucas as vezes que se podia vê-los comprando ração ou medicamentos na bem instalada petshop que fica ao lado do banco. Eram vistos com seus cães até na caríssima loja de “estética canina” da rua principal.

Para não viver em lugar tão árido, além de perdido na pobreza, Bartolomeu havia comprado um pequeno vaso com uma vistosa muda de pimentas vermelhas e instalou na lavanderia comum, com os três tanques de roupas que dividia com mais dois vizinhos. Bem, teve que trazer o vaso para dentro de seu cafofo, pois algum vizinho simplesmente colheu as pimentas, e que ali estavam apenas para decorar. Mais tarde comprou mais dois vasinhos com folhagens, desta vez colocados no interior do quartinho. Tinha três plantas, portanto, além de cinco quadros a óleo que havia ganhado e comprado quando as vacas eram mais gordas. Tinha hábitos muito estranhos para o gosto dos demais vizinhos, que como demonstração de “sucesso” deixavam a mostra no minúsculo espaço os eletrodomésticos recém comprados. Novinhos em folha. Símbolos de que haviam “vencido” em São Paulo.

Quando saia, Bartolomeu costumava voltar no final da tarde, se deitar na cama de solteiro e dela, por meio de controles remotos, ligar a velha TV, então tornada digital pela instalação de um pequeno conversor, e correr os canais na procura de algo menos ruim, pois de bom não havia nada. Foi assim na tarde daquela sexta-feira, quando ouviu um pequeno barulho que parecia vir do interior do móvel de escritório transformado em pequeno armário, onde guardava as poucas roupas de cama e banho, e sobre o qual estava instalado o televisor. Móvel pequeno, dividido ao meio por duas portas de abrir para fora, e que fechavam a frente. O móvel era aberto na a parte traseira. Abriu a portinhola direita e nada. Mas que surpresa ao abrir a esquerda: sobre o cobertor ali guardado a espera do inverno estava uma gata preta e branca, frajola, que havia dado cria a cinco gatinhos. Ele contou mais de uma vez: cinco. A gata continuou deitada como se nada estivesse acontecendo, e os gatinhos continuaram mamando nas tetas da mãe, também como se nada estivesse acontecendo.

Sem ideia do que fazer Bartolomeu fechou novamente a portinhola com certo cuidado, sentou-se na cama, e tentou imaginar como isso poderia ter acontecido. Bem, sem tampa na parte traseira do móvel, e ficava claro que por lá ela tinha entrado e se alojado. Quanto à entrada no cafofo, apenas duas possibilidades: pelo vitrô do banheiro ou da cozinha. Devia ter entrado, se alojado, procurado um lugar que lhe apareceu adequado e parido. Mas, e agora? O que fazer?

Sexta-feira à noite e não havia o que fazer. A ideia de se desfazer da gata e dos gatinhos não lhe parecia correta, sentia-se mal apenas em pensar nessa possibilidade. Não era mais o Bartolomeu do passado. Tinha agora outra mentalidade.

No sábado pela manhã a primeira coisa que fez foi abrir a portinhola do móvel, na esperança que a gata tivesse se ido com os gatinhos. Não tinha. Estava lá com os cinco gatinhos. Ficou olhando: um preto, um branco, um tricolor, um rajado e um preto e branco. Os gatinhos ficaram de frente para ele e o tricolor deu um passo em sua direção. Sentiu-se impelido a pegar o gatinho, mas a mãe ficou de pé, bufou, arrepiou-se toda, e mostrou dentes e garras. Bartolomeu fechou novamente a porta e continuou pensando no que fazer. Não imaginou resistência, e menos ainda com agressividade.

Sem ter com quem sobre isso falar no cortiço, foi até o petshop mais próximo em busca de alguma informação que pudesse lhe dar alguma luz.

Por sorte ou azar, dependendo do ponto de vista, o atendente do petshop gostava de gatos e criava alguns deles. Bartolomeu contou a história, e o homem sugeriu que ele cuidasse dos gatinhos por um mês, tempo em que se alimentam do leite da mãe. Outro bom motivo para a sugestão era a baixíssima possibilidade de alguém se candidatar a adoção como os gatos com tão pouco tempo de vida.

- As pessoas querem adotar animais desmamados.

Bartolomeu perguntou se o atendente não ficaria com eles até que fossem adotados. A resposta foi negativa. Na melhor das hipóteses ficaria com eles para adoção depois de desmamados. Além do conselho desanimador, ele saiu da loja com um pequeno saco de ração, uma vasilha rasa para ração, outra para água, e uma espécie de bandeja de plástico, além de um saco do que parecia ser uma areia grossa, que serviriam como sanitário da gata e dos gatinhos. Tudo explicado como usar, onde ajeitar, etc.

A ideia do atendente era de que a gata não tivesse que deixar os gatinhos e sair do cafofo para comer, beber e fazer suas necessidades durante o período de amamentação, e também para que os gatinhos aprendessem pela observação o que fazer com todo esse aparato que custou um dinheiro que ele nunca imaginou um dia que iria gastar com gatos. Voltou ao cafofo com tudo bem empacotado para não levantar suspeita nos vizinhos, e começou a colocar as coisas nos lugares sugeridos pelo balconista. Aliás, dizia que assim a gata iria também se acostumar com ele, se deixar pegar, bem como os gatinhos.

A gata foi de pronto para a vasilha com água, cheirou a ração, mas não comeu, e fez uso do “banheiro”. Fez um buraco, depositou seus dejetos, e tapou.

- Puxa. Que bicho higiênico.

Ele tinha também comprado uma pequena pá de plástico, com a qual recolheria os dejetos de dois em dois dias, e colocaria em sacos plásticos muito bem fechados antes de deixados para os lixeiros, com a lembrança que o cheiro era insuportável. Isso o fez lembrar dos vizinhos, e foi ao supermercado comprar sacos de lixo muito resistentes, de plástico preto e grosso. Sua missão, agora, era manter tudo isso bem longe do conhecimento dos vizinhos.

Dai para a frente foi observar o que acontecia e manter a rotina tal como desenhada pelo rapaz do petshop. Teve que comprar diferentes marcas de ração até encontrar uma que a gata aceitasse. Para azar absoluto a gata tinha paladar muito refinado, e só se contentou com a mais cara delas, desde que complementada por sachês, tornando a conta ainda mais salgada.

Ficou desse jeito por pouco mais de uma semana. A gata saia do móvel pela parte traseira, comia, bebia, fazia uso da caixa sanitária e voltava para deitar-se junto aos gatinhos. De fato, a gata havia se habituado com a presença dele, e não mais reagia agressivamente quando se aproximava dos filhotes. Isso até o animou a pegar um dos gatinhos para vê-los de perto, e a mãe não esboçou nenhuma reação. Não sabia quais eram machos e fêmeas, pois lhe pareciam todos iguais, mas notou que tinham aparência de normalidade e saúde. Julgava o tricolor o mais bonito da ninhada, mas o rajadinho parecia o mais esperto.

Na segunda semana uma novidade: os gatinhos saiam de trás do móvel, onde estavam com a mãe, e se aventuravam por passos inseguros perto das vasilhas de água, comida e do “banheiro”. Realmente, estavam imitando os movimentos da mãe, inclusive no uso da caixinha sanitária.

- Ah, que bom, respirou Bartolomeu com alívio, imaginando-se livre de fezes e urina de gatos dentro do pequeno cafofo.

Ficou livre, mas agora havia uma novidade incômoda: os gatinhos passaram a miar, principalmente quando a gata saia de perto deles. Rompendo o segredo, a vizinha ao lado havia ouvido os miados durante a noite, e manifestou-se:

- Seu Bartolomeu: o senhor está criando gatos?

Constrangido por ter sido descoberto, não encontrou outra saída que não fosse contar exatamente o que havia acontecido e continuava acontecendo, pedindo compreensão e silêncio, se esforçando para convencer que isso seria solucionado quando os gatinhos estivessem desmamados. A vizinha não se mostrou satisfeita com a solução apresentada, mas nada disse. Sendo a mais próxima,  apenas ela poderia ouvir os miados noturnos, e restou torcer para que fosse compreensiva, discreta e paciente. Bem. discreta não foi, uma vez que um dia depois, quando colocava o lixo na calçada a ser recolhido pelo serviço de coleta, um vizinho perguntou com certa animosidade na voz:

- Esse saco preto está bem fechado, seu Bartolomeu?

Ora, como poderia o homem perguntar pelo saco plástico preto se apenas a vizinha sabia de seu conteúdo? Bem, deveria ter ao menos desconfiado que não existe segredo em cortiço. Por outro lado, como poderia ter fugido da verdade? Dizendo para a vizinha, por exemplo, que o que ele criava no cafofo não era da conta de ninguém. Poderia, é claro, mas o problema é que ele sabia que era impróprio manter animais naquele local. Por outro lado, isso não acontecia por seu desejo, e esperava mesmo resolver em pouco tempo. Tratava-se, portanto, de contornar, embora estivesse ficando cada dia mais embaraçosa a situação. Para complicar ele não podia nem mesmo oferecer os gatinhos aos vizinhos da rua ou mesmo do quarteirão, pois não tinha como levá-los para apreciação dos interessados, e tampouco trazê-los para o cafofo. Era uma operação clandestina, secreta.

Assim se passaram os dias. Bartolomeu dormia menos, pois tinha que acordar cedo para trocar água, completar ração nos comedouros, limpar a então conhecida como bandeja sanitária, e pelos três vezes por semana repor ou trocar a areia higiênica, tal era o nome, por vezes chamada de granulado higiênico.  Saia menos de casa, voltava mais cedo, e suas despesas com essa história se faziam sentir com facilidade no orçamento. Estava indo bem para quem não gostava de gatos. Os gatos, porém, gostavam dele, e se atravessavam entre seus passos quando entrava no cafofo, ao coro de enjoativos miados nem sempre em baixo volume. Bem, ele sabia que bastava fornecer o conteúdo de um sachê, que custava caro, para que os bichanos sossegassem.

Uma noite aconteceu algo inédito. Estava deitado em sua cama, de onde assistia programas de TV, quando miados mais fortes e insistentes vinham do chão, e ao lado da cama. Olhou e viu, ainda que pela luz do monitor da TV, pois a lâmpada já estava apagada, os cinco gatinhos sentados e olhando para ele. Levantou-se e foi ao espaço que os felinos haviam tomado como dormitório, e surpreendeu-se com a ausência da gata-mãe. Ah, ela havia saído por um dos dois vitrôs, e os gatinhos foram procurar abrigo com ele. Como não paravam de miar, ele rendeu-se às circunstâncias e colocou os gatinhos, um a um, sobre sua cama. Exploraram o novo ambiente, andaram um pouco de um lado para outro, fizeram pequenas corridas para brincar, e se amontoaram em torno da perna de Bartolomeu, onde se aquietaram. Bem, quatro deles, pois o tricolor foi se aninhar ao lado do pescoço dele. Ele o tirou, mas como tivesse voltado, achou melhor deixar daquele jeito, e dormiu.

Dormiu mal, pois temia se mexer e sufocar os gatinhos, que dormiam colados em sua coxa. Isso o deixava com o sono leve, e despertava ao movimento de qualquer um dos pequenos felinos. Esse episódio se repetia todas as vezes que a gata saia à noite e os gatinhos ficavam sós. No mínimo duas vezes por semana. Na última vez uma novidade. Além do gato tricolor continuar dormindo em volta de seu pescoço, o rajadinho havia descoberto como entrar por baixo do cobertor e mordeu o seu dedão do pé. Assustado tirou o rajado de debaixo das cobertas, repreendeu o bichano, que pareceu não ter dado muita atenção às reprimendas.

- Tinha que ser você, o rajado. Droga!

Como se desenvolvem rapidamente, uns dias a mais e os gatinhos haviam adquirido outra habilidade. Caminhavam até a lateral da cama, com pequeno salto conseguiam se agarrar ao cobertor e, com auxílio das poderosas unhas, escalavam o trecho restaste até o planalto. Não precisavam mais da ajuda de Bartolomeu para subir, passear, brincar ou dormir na cama. Aliás, faziam isso a maior parte do dia, com ou sem a presença dele. O problema da novidade é que também escalavam o corpo de Bartolomeu, subindo pelas unhas cravadas nas calças, embora com alguns arranhões na pele, até seu colo, quando sentado à frente da mesa de atividades onde lia, escrevia e fazia uso do computador. Do colo, um pequeno salto para a mesa foi fácil, e com isso ficaram comprometidas todas as atividades de Bartolomeu.

Aliás, ele aprendeu rapidamente uma coisa com gatos: eles fazem o que bem entendem, e de nada adianta reclamar, demonstrar insatisfação ou mesmo tirá-los de onde não sejam desejados, pois simplesmente se fazem de desentendidos ou voltam ao lugar de onde foram retirados. Bartolomeu achou melhor, depois desse entendimento, encontrar outro lugar para ler, por exemplo. Mudou também os horários de uso do computador, pois os gatos gostaram de brincar com o mouse e com o teclado. Tornou-se usuário da mesa no final da noite, quando os gatos dormiam.

- Não pode ficar pior, pensou.

Ledo engano, pois ficou pior. Mais uns dias e os gatinhos não precisavam escalar as pernas dele para acesso mais próximo à mesa de atividades. Agora saltavam do chão para a cadeira, e dela para a mesa. Bem, ele ganhou mais um tempo afastando a cadeira da mesa, até que, finalmente, eles saltavam diretamente do chão para ela. Aliás saltavam diretamente sobre tudo que estava no cafofo.

A gata-mãe tinha partido. Cumprira o papel de parir e desmamar a cria. A prole tinha novo e zeloso cuidador, além do fato de, em tese, estar por conta. Com essa história de os gatinhos ganharem altura, Bartolomeu passou a fechar o vitrô da cozinha antes que ganhassem o exterior, e com isso criassem problemas com os vizinhos que, nessa altura, estavam mais do que cientes da presença deles no cortiço.

Dormiam todas as noites na cama, e apareceram com outra novidade: passaram a assistir TV. Sentavam enfileirados e atentos às imagens da TV, que como ficava bem de frente ao pé da cama, permitia que Bartolomeu lhes pudesse ver as silhuetas das cabeças com as orelhas pontudas. Como descobriu que não se interessavam por som, mas apenas pela luz e movimento das imagens, desligava o volume e dormia com a TV ligada a noite toda. Pelo menos não miavam.

Desmamados passaram a consumir apenas ração, agora para filhotes – sem que abrissem mão do sachê, é claro -, o que deixou as despesas ainda mais altas. Na última ida ao petshop Bartolomeu lembrou ao balconista a promessa de exposição dos bichaninhos na loja para eventuais adoções, mas o rapaz veio com novidade. Disse-lhe que havia devolvido aos donos os que lá estavam com a mesma finalidade, pois ninguém estava se interessando em adoção, nem mesmo por cães e gatos de raça, vermifugados, vacinados e castrados – o que não era o caso dos gatos dele –, e que isso aumentava o trabalho e as despesas da loja. Além de voltar para casa com essa má notícia, trouxe no pacote de compras um vermífugo a administrar uma vez por mês aos pequenos bichanos, escova para tratamento de pelos, alguns brinquedos e um “arranhador” para que pudessem afiar as unhas. Faltavam as roupas, mas ele já não duvidava que chegaria a isso.

Problemas com vizinhos tardaram, mas chegaram. Uma tarde de domingo, saído do cafofo Bartolomeu pisou em algo mole no corredor entre as casinhas e que levava ao portão do cortiço para a rua. Era nada menos do que fezes que pareciam ser de algum cachorro. Como o portão da rua estava sempre fechado, inclusive com cadeado por conta da cisma exagerada de um residente paranoico, o suposto cão só poderia estar dentro do terreno do cortiço. Ficou praguejando e dois vizinhos abriram suas portas para tomar conhecimento do que ocorria no corredor.

- Viram isso?

Um dos vizinhos se desculpou pelo incidente, e disse que era obra do cachorrinho dele, e que tomaria mais cuidado para que não voltasse a acontecer.

A vizinha ficou indignada com a notícia:

- Cachorrinho? Agora temos cachorro aqui dentro?

Em outra circunstância Bartolomeu teria feito um verdadeiro escândalo, mas lembrando dos gatos lhe pareceu melhor concordar com o vizinho que o importante é que o cão não fizesse suas necessidades no corredor.

Nessa altura surgiram mais dois vizinhos e a discussão subiu para outro andar: se o cortiço – que chamaram de conjunto – era lugar para se criar bichos.  Bartolomeu se manteve quieto, mas os demais, inclusive o que agora tinha um cachorro, se manifestaram contra a presença deles no local. Aliás, o do cão disse com todas as letras que só havia adotado o cachorrinho por conta dos gatos de Bartolomeu.

Emparedado, o agora “gateiro” contou a história do aparecimento dos felinos, e do que pretendia fazer com eles, embora o que tinha em mente não estivesse propriamente dando certo. Diante dessa explanação, o dono do cãozinho afirmou que também ele iria doar o animalzinho, tão logo Bartolomeu se livrasse dos gatos.

Os demais vizinhos participantes da discussão não gostaram do encaminhamento, e um deles foi chamar o senhorio, que morava na casa ao lado.

O homem chegou, ouviu as reclamações de uns e justificativas de outros, deve ter ponderado que qualquer decisão que tomasse poderia levar a perda de inquilinos que ao menos pagavam seus alugueis em dia, sugeriu bom senso entre todos, e saiu de cena.

Bartolomeu argumentou em favor dos gatos, lembrando que eles não saem para o corredor, que fazem suas necessidades dentro do cafofo, que seus dejetos são acondicionados em sacos plásticos seguros e levados pela limpeza pública junto com os sacos de lixo, que não miavam de modo a incomodar o sono dos demais, etc. O dono do cãozinho assegurou que ele não mais voltaria a realizar suas necessidades no corredor, e que não latia.

Para bem da verdade ninguém saiu satisfeito, mas as coisas ficaram exatamente do mesmo tamanho. O cortiço passou a ter um cachorro e cinco gatos, ao menos até aquele momento, pois um dos contrariados saiu da discussão dizendo que havia negado à filha a criação um bichinho, e que agora estaria desmoralizado perante a menina.

No âmbito doméstico de Bartolomeu, a situação continuou conturbada. Afinal, se os gatinhos tinham adquirido habilidade para subir em cama, cadeira e mesa, por que não também nas demais mobílias, pia e lavatório? O problema, porém, não era o subir, mas o verdadeiro estrago que faziam quando da subida. Derrubaram os três vasos de plantas, um radinho a pilha, o mouse, o teclado, o escâner, o modem, uma luminária e uma série de outras coisas que ficavam sobre os móveis e pia. Como saída Bartolomeu se viu obrigado a guardar tudo isso em armários, se desfazer do que não podia guardar, e deixou de usar o fogão elétrico de duas bocas, antes que algum acidente grave pudesse ocorrer.

O cãozinho do vizinho também cresceu, e embora não fizesse necessidades no corredor, latia quando da passagem de quem quer que fosse. Ah, sim: não era de raça pequena. O outro, que havia negado à filha a criação de um bichinho, resolveu liberar, e a menina apareceu com um casal de cães. Uma menina, de outra família, também aderiu à liberalidade do cortiço, e passeava livremente com o seu cachorro. Dizem que um garoto do cortiço havia passado no corredor levando para casa um viveiro de periquitos. Calopsitas, talvez.

Certo começo de noite Bartolomeu encontrou seus gatos com comportamento diferente do habitual. Estavam entrando e saindo de trás do móvel que havia lhes servido de berço quando nasceram. Curioso abriu a portinhola, e eis a razão: lá estava a gata-mãe dos cinco gatinhos, agora amamentando mais cinco, pois voltara para dar nova cria. Bartolomeu havia fechado o vitrô da cozinha, mas não o do banheiro.

Passou a ser conhecido nos arredores como “o velho dos gatos”.

Rogério Centofanti
São Paulo – 20 de maio de 2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

O Pensador do Cárcere


Olho aberto ouvido atento
E a cabeça no lugar
Cala a boca moço, cala a boca moço

Calabouço – Sérgio Ricardo

Boa parte das generalizações que fazemos sobre pessoas de um dado grupo, de uma dada cultura, se devem aos contatos que mantemos com membros desses grupos ou culturas, ainda que circunstancialmente, e pelos estereótipos sobre elas formados por seus interpretes, em particular da literatura e das artes cênicas. Esses contatos mediatos ou imediatos formam uma matriz em nosso imaginário, e a partir dela julgamos saber, conhecer essas pessoas, ainda que por representações meramente caricatas.

Foi em boa parte pelo prazer da escrita, desse exercício de intérprete empírico ou ficcional da vida, que em dado momento me interessei por pessoas que vivem em cárceres, da mesma forma que já havia me interessado por pessoas que vivem em outros ambientes não muito usuais. Isento de qualquer preconceito de natureza moral, ocorreu-me que pouco ou nada sei dessas pessoas, exceto aquilo que chega a todo mundo pelo viés dos maniqueístas de plantão. Pelos “do bem” que interpretam os “do mal”, por promotores de Justiça e apresentadores de programas sensacionalistas das rádios e TVs, ou seja, pelos que vivem às custas do medo que promovem na sociedade para que possam se apresentar como guardiões e repositores da lei e da ordem.

Diferente do que ocorre com outros grupos, os membros da comunidade carcerária pouco se expressam. Não escrevem, se escrevem não publicam, e se publicam não sei onde encontrar suas obras. Afinal: não têm o que dizer, não querem dizer ou não sabem dizer? Excluem-se ou são excluídos?

Foi por imaginar impossível a inexistência de vida inteligente e sensível atrás das grades que resolvi apresentar-me a essa comunidade, na esperança de encontrar algum membro disposto a manter um diálogo, do qual pudesse talvez resultar alguma publicação honesta.

Pouco me importava os motivos que teriam conduzido essa pessoa para as grades, suas aventuras e desventuras, mas apenas seu pensar, seu sentir, sua maneira de enxergar e de interpretar o mundo. Fiz isso despido de ingenuidade, de medo e de hipocrisia, pois sei que a diferença do esqueleto escondido no armário do preso e no do livre, é o fato de que o do preso foi descoberto. Como todo mundo, também eu vivo cercado de delinquentes travestidos de vestais, e sei muito bem disso. Um ou outro pensa que engana.

Não tinha e não tenho nenhum interesse em análise comportamental de presidiários, e muito menos de criminosos, tal o nome que se atribui aos recolhidos aos cárceres. Já havia pesquisado e tomado a psicologia contida na criminologia de final de século XIX e início de XX como tema de pesquisa e aulas, a época que ainda lecionava. Estava até mesmo esboçando escrever um livro de caráter histórico sobre aquele efervescente período. Agora queria uma amostra do pensar e do sentir do encarcerado. Apenas isso. Despretensiosamente isso.

Como não conheço pessoas atrás das grades, resolvi escrever uma carta ao mais famoso de todos os presos, me oferecendo para produzir sua biografia. Afinal, na condição de celebridade haveria interesse público na aquisição de livro com informações a seu respeito. Certamente eu frustraria o leitor interessado em novela policial, mas até essa consciência tornava minha iniciativa motivadora.

O famoso interno respondeu, depois de certo tempo, afirmando que não tinha interesse em autobiografia e biografia autorizada, pois tinham sabor de propaganda, de autopromoção, enfim, de coisas que rejeitava. Fiquei surpreso com a demonstração de renúncia à vaidade, mas como medida compensatória enviei-lhe cópia de uma de minhas crônicas, mesmo porque se dizia leitor compulsivo. O texto correto e elegante da mensagem que me foi dirigida não deixava dúvida de que se tratava de pessoa familiarizada com as letras.

Como o enredo da crônica enviada se passa no centro velho de São Paulo, mesmo se tratando de ficção o interno enviou-me impressões, assim como alguns relatos do passado sobre experiências de vida na mesma região, e foi dessa forma que demos início a uma troca de correspondência que durou um bom tempo.

Falamos um pouco de cada coisa, mas alguns temas se mostraram mais destacados, principalmente pela relevância existencial e social. Diria que foram tratados com a devida atenção e profundidade. Um deles foi a liberdade. Afinal, para nós, os chamados livres, fica quase sempre a impressão que presídio é ambiente fóbico, e em constante iminência de caos e barbárie, tendo em vista as características de seu público residente e de seu clima análogo ao de panela de pressão. É o que assistimos nos filmes, nas novelas, e lemos nos romances policiais. É a ideia da personificação do próprio inferno.

O cárcere se define como um ambiente de confinamento, onde pessoas convivem em meio a restrições de movimentos e de condutas. Nessa medida se assemelha a um asilo, hospital, convento, quartel, manicômio, escola interna, mas com maior radicalidade nos limites. Confinamento com vistas a punir, a vingar, ainda que o discurso oficial seja o de recuperar.

Lembrei-me, e contei ao interno do que disse Foucault sobre os alienados, ao tratar da história da loucura. Eram entregues a capitão de um navio no cais da cidade onde viviam, para que a soldo fossem embarcados e levados ao mar. No porto seguinte, o mesmo capitão era remunerado para não os desembarcar, e ainda para conduzir mais uns tantos para o mesmo destino. Afinal, onde alguém pode ser mais enclausurado do que em um navio em pleno oceano, de onde não têm para onde fugir? Não é novidade, na história, a existência de navios-presídios. É um exílio.

Observou o interno, em comentário, que a bordo daquelas embarcações não se podia falar dos loucos como homens livres no sentido da escolha, embora fossem e continuem sendo os representantes naturais e legítimos da liberdade.

O louco ameaça justamente por não ter verniz, por não ser hipócrita. Ele não se rende às convenções, diz o que tem vontade de dizer, faz o que tem vontade de fazer. É justamente esse exercício de liberdade que as pessoas procuram com o consumo de drogas, sejam licitas ou não. É a essa coragem de ser que o “cara limpa” não se arisca à entrega. Lhe falta coragem. A droga liberta a pessoa de seus próprios controles. Apenas o permitir-se à manifestação da alegria dos espontâneos, dos livres, e eis o suficiente para incomodar os reprimidos de salão.

Concordei com ele. Afinal, e quando cruzava com “noias” na região central de São Paulo, fui assediado por um que queria moeda para almoçar no Bom Prato. Sem nenhum motivo aparente, e talvez intuindo que eu poderia entender, disse-me que “noia” era o normal, que precisava entregar seu tempo de vida para a acumulação de riqueza do outro, e apenas para se abrigar, vestir e comer. Pensando bem, uma paranoia dos “normais”, mas de fato uma transgressão à liberdade. De mim queria uma moeda, e a antena telescópica de meu carro para com ela fazer a haste do cachimbo para fumar o crack. Nada de alienação, portanto.

O interno lembrou-se de outra figura icônica da liberdade: o andarilho. De fato, e em caráter totalmente individual, a pessoa se liberta de tudo que tem sabor de prisão – família, propriedade, emprego, bens de consumo –, se lança nos caminhos, a pé, sem eira e nem beira, sem um ponto de chegada, e apenas anda. Dorme pouco onde pode, acorda cedo e anda. O andar não é meio, mas fim. Afinal, se o mundo é imenso, se há tanto para ver, o que pode ser a existência que não um perpétuo caminhar?

Nos dois casos, discutimos a dimensão da liberdade na esfera do ser, e não do ter. Louco, andarilho ou ermitão, e o que observamos são figuras que respiram o momento, como os pássaros, que nada sabem além do que experimentam, do que vivenciam no instante. Instigante pensar que a liberdade não se compra, mas se vende.

Condenado há muitos anos de cárcere, disse-me o interno algo de bastante valor:

Para que serve o direito de ir e vir se a pessoa não conduz a si mesma, isso é, se não transita na liberdade dos próprios pensamentos e sentimentos. Não me sinto preso, pois meus pensamentos e sentimentos são absolutamente livres, não têm carcereiros e nem donos. Podem me trancar em uma solitária, mas meus pensamentos e sentimentos não podem ser aprisionados nem mesmo pela mais alta das muralhas. Não há cercas para a imaginação e para a reflexão sobre o que quer que seja. O ir e vir interior é que define os movimentos da liberdade do homem.

Penso da mesma forma. Não há dimensão espacial para o pensar e sentir. A liberdade plena é possível e nada custa para quem se guia pelo querer – como louco, andarilho e ermitão. Por essa perspectiva, livre é apenas o que pode exercitar-se na condição de dono de si. Do que se conduz pela luz dos próprios pensamentos e sentimentos. O interno enxerga e expressa melhor do que eu esse quadro:

Basta dez minutos - se necessário tanto tempo - de prosa com esses exemplos de cidadania, mártires da renúncia aos desejos, para se encontrar com suas poderosas limitações: crendices, superstições, preconceitos, princípios, moralismos e principalmente medos. Eu não trocaria minha “prisão” pela “liberdade” deles. Gente incapaz de pensar com a própria cabeça, de reconhecer e permitir em si um sentimento que não seja pré-definido por seus freios interiores. Não é diferente dentro do presídio, e me esforço para fazer ver aos companheiros que é difícil fugir da prisão interior, pois está incrustrada na maneira de conceber a si e as relações. Muros tatuados na alma. A essa gente nem mesmo a imaginação está permitida.

Interessante é que contra a ação do tráfico da narcose coletiva ninguém se insurge. Empresas contratam head makers para que docilizem seus empregados de modo a torná-los mais produtivos pelos poderes de manejo do significado das palavras. Chamam a esses espetáculos ilusionistas de eventos motivacionais. E assim prestidigitadores convencem empregados que são colaboradores, chefes que são líderes, grupos que são equipes, até que as relações de trabalho sejam modificadas a partir das novas mentalidades, embora as coisas continuem sendo exatamente as mesmas: empregado é empregado, chefe é chefe e grupo é grupo. Doutrinação na esfera da ideologia empresarial não é pecado nem crime.

Religiosos de todos credos e cores invadem as casas por rádios e TVs, alguns próprios, inclusive, com promessa de cura para todos os males, que vão do câncer até a pobreza, passando por toda gama de desgraças. O preço? Dizem que apenas abraçando o deus que apregoam, além do pagamento do dízimo, é claro. Ao fim e ao cabo, o canceroso talvez encontre cura nos hospitais especializados, e o pobre continua mergulhado na mesma pobreza, apesar do terno novo e barato para os cultos de finais de semana. Doutrinação na esfera da ideologia religiosa não é pecado e nem crime.

Políticos de todos tamanhos e cheiros saem das sombras de quatro em quatro anos, com promessa de cumprimento e melhoria nos direitos sociais. Ah, haverá moradia, saúde, educação, transporte e trabalho para todos, e os corruptos serão cozidos no caldeirão do satanás e no fórum do midiático do juiz de Curitiba. O preço. Querem o voto do crédulo, da mesma forma que pastores os dízimos desses mesmos desencontrados de si, motivo do apego à miragem de algum salvador. Doutrinação na esfera da ideologia política não é pecado e nem crime.

Não é diferente no cárcere, e isso é demonstrado pelo interno:

Não é sem razão que os presídios estão repletos de religiosos e de conselheiros. São os carcereiros de almas, abutres que se instalam no modo como os presos enxergam a si mesmos, não raro pelos óculos de pensamentos e sentimentos de culpa. São os defensores da naturalização do binômio crime e castigo. Promotores do rebaixamento existencial e da sublimação que torna os presos reféns da impotência. Pior é que essas drogas abstratas entram pela porta da frente dos presídios, patrocinadas pelo Estado, e ainda com sobra de repressão para quem se insurge contra essas ideologias da docilização. Pelo que me dizem não é diferente na sociedade aberta, e que a ação insidiosa dessas forças – hoje potencias com direito a bancada no parlamento – é concentrada sobre os mais pobres, sobre pessoas de corpos resistentes, mas de vontades e mentes débeis. Não é diferente no interior da vida social dos cárceres. Convencem o infeliz que ele não é ele, mas a manifestação de um espírito da pobreza e da delinquência que lhe tomou o corpo. Fizesse eu uma coisa dessas, e estaria respondendo a processo por estelionato.

O lado mais pernicioso desses zumbis inoculados pelas ideologias – empresariais, religiosas, morais e políticas – é que proliferam feito baratas. Como nas lendas de vampiros, onde a vítima do príncipe das trevas se transforma em vampiro de segunda classe. Na atual versão do pós-vampirismo as vítimas se transformam em soldados da crença, e saem à caça de pescoços desavisados. Acreditam que têm missão salvadora e assim se revestem do direito de invadir os espaços dos outros, e neles professar o discursinho rançoso, chão e mesmeiro de seus slogans. Imaginam-se no direito de julgar e de apontar caminhos. Quem precisa disso? Donos de si evidentemente que não, pois guiados pelos próprios norteadores. Livres são egocêntricos no sentido que se movem a partir das próprias percepções, convicções e afetividades. Porém, como sabem identificar e respeitar liberdade no outro, não invadem.

Contou-me o interno que a maior vergonha que sentiu na vida por conta de se meter a moralista e conselheiro aconteceu no passado distante, numa famosa praia de São Luiz, no Maranhão. Disse que tomava sol quando dele se aproximou uma menina de aproximados quatorze anos se oferecendo para um programa. Indignado com a cena, pois coisa de pedófilo, perguntou à moleca se não tinha jeito melhor de ganhar a vida. Ela disse que poderia ser empregada em casa de família, em troca de cama e comida, fazendo todas as tarefas da casa sem descanso em dias santos e feriados, suportando as maldades e frustrações da patroa, e a noite se deitando de graça com o patrão e com os filhos dele.

Nunca me jogaram na cara tanta realidade com tão poucas palavras. Se não servia, eu não tinha direito a pensar nada, e muito menos a dizer alguma coisa. Até hoje sinto vergonha de mim.

Disse-me que o melhor meio de sobreviver no cárcere é cuidar da própria vida. Afinal, a ninguém interessa saber o motivo pelo qual as pessoas ali se encontram. Cada qual tem a sua cruz para carregar, e isso é tudo que precisam saber uns das outros. Assim, e mesmo na inevitável promiscuidade por conta da superlotação, cada um cuida de si. Disse-me que bem antes dessa campanha em vigor na sociedade civil pelo reconhecimento dos negros e homossexuais, isso já era praticado no cárcere. Ali as pessoas são o que são. Quem cuida de si presta um grande serviço pelo coletivo. Como não há no cárcere espaço físico de sobra, os presos zelam pelo espaço vital, pois esse não tem limites, e nem barreiras, exceto as acatadas pelo próprio vivente.

Dividi com ele a memória de minha única experiência de reclusão, se assim podia dizer, também vivida no passado. Ocorreu na juventude, quanto resolvi abandonar os estudos e viajar trabalhando embarcado em navio mercante. Incrível como no oceano, e em plena travessia, aquilo que parece uma enorme embarcação atracada no cais, não oferece outra impressão que seja a de um pequeno barco. Dias e noites vendo e ouvindo mar, sentindo cheiro de diesel, e sujeito aos movimentos constantes. Seis movimentos para ser exato, e ao mesmo tempo, de onde o andar de bêbado pelo convés. Dias e noites absolutamente iguais. Nada mais monótono, pois nada há para ver em mar aberto que não seja mar aberto.

Mais interessante foi descobrir que a tripulação, à época de 12 homens, não convive. Não interage. Como a bordo se trabalha em quartos – seis quartos de quatro horas cada em um dia completo -, poucas eram as oportunidades de cruzar com algum oficial de náutica, de máquina ou mesmo com a marujada. Apenas no horário do almoço, em copas separadas para oficiais e moços de convés, e em pleno silêncio. Depois todos sumiam para suas atividades ou se fechavam em suas cabines, onde ninguém entra, exceto a convite, mas que nunca acontece. A cabine é o castelo onde cada um exercita a liberdade. Incrível, mas a pequena cabine é onde acontece a vida no imenso oceano, e não no navio. Com o tempo a embarcação me parecia cada vez menor, e a cabine desnecessariamente cada vez maior. Tinha espaço e mobílias desnecessárias. Afinal, precisava apenas do suficiente para acomodar minhas reais necessidades. Interessante como, sem vitrines para consumo, descobrimos que de coisas pouco precisamos.

Bem, essa foi minha aprendizagem de convívio comigo mesmo, assim como de respeito ao espaço dos outros. Nunca perguntaram nada sobre minha vida, e nem eu sobre a de qualquer um deles. Sei apenas que Jonas, o mulato, tinha mulher na Holanda porque me mostrou o nome dela tatuado no braço, e Chumbinho, o velho, um filho formado em medicina no Rio de Janeiro, as custas de toda a vida “batendo ferrugem no convés”, pois foi o que me disse ao mostrar a foto da família. Depois de dois anos embarcado, e só consigo me lembrar desses dois episódios de convivência. Minha cabine também era meu castelo, onde me trancava e escrevia quando não estava em atividade. Escrever é um mergulho na própria interioridade e de nada se precisa para isso, que não seja papel e lápis. Escrever é um encontro do escritor consigo mesmo. Jonas era vizinho de cabine e tocava violão. Eu ouvia. As vezes cantava. Eu ouvia. Entendo bem, portanto, quando o interno diz que não se sente preso nem em solitária, como também que a sobrevivência no cárcere depende de cuidar da própria vida. Quem está consigo nunca está solitário. 

Não me causou nenhuma estranheza a travessia solitária de Amyr Klink, muitos anos depois, da África para o Brasil, a bordo de um barco a remo. Compreendi o relato de ter permanecido a bordo durante certo tempo, quando da chegada a praia de nosso litoral, antes de desembarcar nas areias.

O interno gostou da história, e perguntou pelo que os tripulantes se interessavam. Respondi que deduzia a partir do que traziam a bordo quando em algum porto: bebidas destiladas, artigos de sex shop, filmes pornográficos em vhf – tinham TV e vídeo nas cabines -, cigarros, perfumes e certamente um ou outro narcótico. Havia quem trouxesse livros, discos e até mesmo obras de arte. Havia de tudo, mas eu não sabia o quanto disso era muamba a ser depois comercializada no Brasil. Creio que bebiam em suas cabines, assistiam vídeos, talvez se drogassem com cocaína ou mesmo ópio, mas fumavam o tempo todo.

O interno comparou ao cárcere, lembrando que deveria ser a mesma coisa com a maioria das pessoas na sociedade civil. Concluiu com humor:

Para pessoas como nós nada melhor do que uma pequena ilha tropical no meio do oceano, com água doce, mas sem canibais ou qualquer outra ameaça humana. Se possível com papeis e lápis para registrar o convívio exclusivo com a própria reflexão e imaginação, para exercer a liberdade do pensar e do sentir.

Certamente lhe ocorria o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

Um segundo tema que foi motivo de muitas reflexões e trocas de correspondência foi educação e conhecimento. Afinal, é o que mais se diz faltar para desenvolver o país e recuperar os criminosos largados nos cárceres. O que mais se diz, o que menos se compreende e, como consequência, o que menos se pratica, principalmente por parte daqueles que se dizem especialistas e profissionais de educação. Da instrução com certeza, da educação, porém, com raras exceções. Também nesta discussão eu e interno encontramos muitos pontos de identidade e concordância. Essa discussão nasceu do fato de ter dito que fui professor durante muitos anos. De ter sido profissional de ensino, ainda que não de educação, mesmo porque faz tempo me parece que educação é um fazer, uma construção de quem se elabora, e não produto de alguma ação exterior. Uma elaboração de si. O interno tinha ideias próximas.

Dizem que a melhor ferramenta para “recuperar” o preso é a educação. Aliás, diria que para humanizar qualquer pessoa pelo lançamento de luz sobre os cantos sombrios da vida. Mas do que falam? Eu não estou falando de instrução, de “matérias”, de aulinhas disso ou daquilo, mas de educação, isto é, do caldeamento de saberes que possam de fato formar o modo da pessoa perceber a si, os outros, o mundo, e sua posição diante desse quadro complexo e mutável da existência. Por conhecimento falam da coletânea de informações a serem depois papagaiadas nos encontros sociais, na vulgaridade superficial das redes, e nas que podem ser convertidas em operações a serem oferecidas no mercado, no mercado de trabalho, no mercado de gente. É com esse entendimento de educação e de conhecimento que pretendem preparar os presos para que possam retornar ao seio da sociedade, junto, é claro, aos insuspeitos conselhos dos abnegados moralistas e crentes. Eis o caminho, no projeto do Estado, para salvar os que se desviaram da senda da retidão. E eu é que sou cínico.

Não, nada de cínico. Apenas exercitava a inteligência crítica sobre tudo o que havia se tornado status quo sagrado da sociedade. Questionar a educação e o papel quase sacerdotal dos professores é um sacrilégio, assim como o papel sacro santo de promotores, juízes, delegados e outros entes tomados como símbolos perenes da democracia, seja lá o que se entenda por isso. Professores instruem, na melhor das hipóteses, mas quase nunca educam. Aliás, na maior parte das vezes nem mesmo sabem o que seja educação. Os guardiões da lei cumprem e fazem cumprir as leis na melhor das hipóteses, mas não fazem nada que tenha a menor semelhança com o que se possa chamar de justiça, seja lá o que por isso se entenda. São crenças acéfalas que se perpetuam por práticas igualmente acéfalas, mas que se arrastam pelo tempo nas repetições e repartições da burocracia institucional.

Falo de educação, de transformação da pessoa promovida no próprio interior do vivente. Isso não acontece no cárcere, e acho que tampouco fora dele. Algo com tal pretensão, mas apenas enquanto simulacro de transformação, é delegado aos pastores e outros comerciantes de ilusões, mas nunca a pessoas que lidem com ideias maiores, com o mundo dos conceitos, e não com presos. Tampouco delegado a pessoas que lidam com sensibilidade criativa, e não com presos. Certamente sairiam melhores do que entraram, melhores perante si mesmos, mais elaborados, mais sensíveis, mais donos de si se convertidos em educadores de si mesmos. O que se tem é a prática de expor os presos a desgastantes “aulas” sobre “matérias” as mais diversas, talvez com o objetivo de convence-los que são ignorantes em relação a um monte de coisas, menores do que seus algozes, talvez de demonstrar que os caminhos do “saber” são árduos, pois outra finalidade não se encontra. Com pouca escolaridade, e o pouco que sei aprendi às custas da própria curiosidade em pesquisas na biblioteca do presídio.

E aprendeu muito. Diria que mais e melhor do que muitos “educadores” que conheço, incapazes de educar a si próprios, ao menos no sentido que eu e o interno entendemos por educação. Vivemos guiados pelo senso comum e pelo bom senso, pois inseridos em mundo cujas relações se dão com base no senso comum e no bom senso, mas é difícil imaginar e ainda mais aceitar “educadores” que guiam o entendimento do mundo a partir de juízos sobre tais critérios. Imaginam-se dotados de conhecimentos pelo fato de serem leitores ou expectadores assíduos dos noticiários. Imaginam que informações sejam sinônimo de conhecimento, da mesma forma que as aulinhas com as quais ganham salário sejam sinônimo de educação.

Contei a ele a experiência desagradável que estou tendo agora, com uma “educadora artística”, quando depois de velho resolvi frequentar um curso de desenho artístico. Não é que a “educadora” censura a mim e meus colegas quando nos aventuramos a criar qualquer coisa que não tenha sido por ela exigido? E isso em escola de arte, onde o mínimo que se pode esperar seja justamente o exercício da liberdade de criação. Por que isso? Porque ela não cria. É “educadora”, e não artista. Adora alunos que entram mudos e saem calados das aulas, e que não se desviam um milímetro do que lhes é exigido. São tecnicamente bons, mas suas obras nada têm que se possa chamar de criação.

Contei também das dificuldades que tinha, quando professor de Psicologia em cursos superiores de Psicologia, de fazer com que meus alunos apreendessem (sim, com dois “es”) a lógica experimental, mais do que os resultados de pesquisas experimentais. Que filosofassem sobre os pressupostos dos princípios do pensamento psicológico. Nem mesmo conseguia, muitas vezes, fazer com que soubessem o que eram pressupostos. Queriam técnicas, aplicações, de onde não raro deles ler e ouvir “psicologias” tiradas do populacho, do bem senso, do senso comum, dessas que assistimos todos os dias na boca dos “especialistas” alternativos das TVs.

É o saber tomado como sinônimo do que se pode aplicar. Também o conhecer como sinônimo de operação, embora sem a menor noção dos saberes que estão por trás desses fazeres. Conclusão disso é que a criatura sai, depois de cinco anos de curso, exatamente do jeito que entrou. Não consegue refletir sobre o comportamento – nem experimental e muito menos filosoficamente. Decora, papagueia alguns princípios e conceitos, mas sem a menor condição de saber do que fala.

Nesse sentido, o interno sabia muito mais do que muitos letrados que eu conheço. Tinha o mérito de lidar com dúvidas mais do que com certezas, não tinha a presunção do saber embora soubesse, não tinha preguiça de investigar, e apreendia saberes, pois capaz de incorporá-los, como alimentos ao organismo. Havia descoberto o saber como poderosa e talvez única forma de transformação: a transformação de si, única da qual poderia reclamar autoria, e da qual não poderia ser desalojado ou desapropriado. Descobrira que saber que não se transforma em apropriação é apenas informe. Saber não se compra, não se adquire, se apropria pelo esforço, pela dedicação, e por meio do emprego de capacidades intrínsecas: o pensar e o sentir.

Como não temos educação nem na sociedade aberta, no imenso cárcere a céu aberto, certamente o Estado precisará construir um número ainda maior de cárceres do que o atual - que não é pequeno -, apenas para dar abrigo a horda de ignorantes, inclusive escolarizados, que aumenta assustadoramente. A maior parte dos presos tem por motivação de ingresso no cárcere a própria ignorância. Criar mais escolas? Para que? Apenas para tirar crianças das ruas antes que sejam vítimas da ignorância, isto é, antes que sejam recolhidas aos presídios?

Pode-se concordar ou não com as ideias do pensador do cárcere, mas fato é que pensa mais e melhor do que vejo, ouço e leio dos moralistas, civilistas e justiceiros, que gostam de ver a si próprios como exemplos de virtude. Pode-se também discordar das minhas, mas isso não tem importância. Quem escreve presume a existência de um leitor, mas como diz Michael Foucault pretende apenas “mostrar-se, dar-se a ver, fazer aparecer o rosto próprio junto ao outro”, e isso o interno também sabe ao dizer que aprecia escritores. Aqui também ele se tornou um deles. Ficou-me a impressão que como eu também ele não tem muito com quem dividir o lado mais elaborado de seu interior.

Fato é que o pensador do cárcere sabe construir ideias, como um pedreiro com tijolo a tijolo constrói uma igreja, e isso é bem mais do que se encontra nestes dias que o saber se confunde com um punhado de opiniões que não se sustentam a não ser pela mera afirmação delas. Tratamos de muitos assuntos e sobre eles trocamos muita correspondência, mas parece de bom tamanho parar por aqui.

Antes disso, dizer que quando diante de suas cartas, escritas a mão em folhas de caderno arrancadas do espiral, me trouxe satisfação e orgulho, pois soube por ele que fazia isso no período da tarde, dentro de horário consentido, e nas mesas da biblioteca do presídio. Lamentava não poder ler e escrever em sua cela, principalmente a noite, quando tudo fica silencioso no cárcere. Por que isso é negado a ele e aos demais? Para fazer parte do quadro de mesquinhez da punição, da vingança, para que “aprendam”, seja lá o que queiram dizer e obter com isso. De qualquer modo, e como me disse, tinha o tempo do castigo para pensar no que eu havia escrito, e no que iria ele escrever.

Quem é o pensador? Não importa. Não interessa a mais ninguém que não sejamos nós, os correspondentes. Ele soube que eu iria escrever uma crônica sobre nossas conversas, e em nenhum momento pediu ou insinuou que devesse identifica-lo. Tratou-se o tempo todo de uma relação de respeito e confiança mútua. O homem é um cavalheiro. Por que as correspondências foram interrompidas? Bem, ficam alguns finais para que o leitor possa escolher o que melhor aprouver ao seu imaginário.

Assisti nos noticiários da TV que ele foi morto durante uma sangrenta rebelião no presídio. Assisti nos noticiários da TV que escapou do presídio de segurança máxima em fuga cinematográfica. Em sua última carta deu a entender que as correspondências seriam interrompidas por boicote dos agentes de segurança do presídio. Disse-me que não poderia continuar escrevendo, pois fora acometido por uma doença muito grave que restringia drasticamente seus movimentos. Simplesmente porque não tínhamos mais o que dizer um ao outro.

Rogério Centofanti
São Paulo, 16 de maio de 2018