segunda-feira, 16 de maio de 2016

Aposentados de si

Sônia morreu. Disseram que da rápida expansão do câncer do pulmão para o cérebro resultou a morte prematura de minha colega. Por ironia a descoberta do tumor coincidiu com a concessão da aposentadoria, cuja espera ela monitorava em contagem regressiva por anos. Tinha planos, muitos planos para a vida. Iria viajar para o exterior, talvez morar em uma pequena casa a beira mar, participar de cursos livres de pintura, etc. Boa parte desses planos ela poderia ter realizado a qualquer momento. Não ganhava tão mal como professora universitária, nunca se casou, não tinha filhos e morava com os pais e que tinham condição estável.

Apesar de passados mais de dez anos e não me esqueço dessa história. Sonia deve ter sido a primeira colega da mesma idade a morrer. Vários se aposentaram depois dela, mas nenhum ainda morreu. Quanto aos que se retiraram da vida ativa nada sei de emocionante, embora, como Sonia, estiveram quase sempre repletos de ideias que não se realizaram. Parece que a aposentadoria esconde um ingrediente libertário, uma espécie de carta de alforria. Bem, se assim fosse e seria de esperar que se tornassem revolucionários em relação à própria vida depois da inatividade profissional, mas não é o que costuma acontecer. A maior parte se recolhe. Diria mesmo que encolhe.

Residindo em cidade pequena tornei-me amigo do carteiro da localidade. Um sujeito interessante em vários aspectos, e uma inteligência incomum naquela terra de mesmeiros, onde nenhuma conversa desvia um milímetro das trivialidades de costume. Também cheio de planos para a aposentadoria, embora, no caso dele, no âmbito dos negócios: produção disso e daquilo, criação disso e daquilo. Instigante, não fosse o fato de ele ter, a época, exatos vinte e nove anos. Perguntei a razão da espera pela aposentadoria, e a resposta não causou estranheza: no emprego ganhava pouco, mas era ganho certo.

Tenho notado que o princípio do “antes pouco do que nada” e do “pinga, mas tem” não se limita ao martírio a que muita gente se subordina durante maior parte da vida econômica ativa, de onde essa obsessão mágica da aposentadoria como uma espécie de reparação, de redenção, ainda que na maior parte das vezes para receber aquelas migalhas reservadas à maioria dos nacionais. Parece que o conformismo com a redução da renda se faz acompanhar do conformismo com a redução de expressões da vida, e isso nem sempre se justifica. Há quem não diferencie a vida no emprego (não confundir com trabalho) com a vida pessoal. Usa o uniforme da empresa em casa e na vida social, e quando compra alguma roupa, com a mesma cor do uniforme. Falta de dinheiro? Não, falta de encontro consigo própria. A pessoa é tão comum, tão objeto, que adotou literalmente o uniforme como identidade.

Aposentar-se diz respeito ao apartar das atividades remuneradas.


Quando nos tornamos adultos, e por isso cravada a marca de nosso ingresso no mundo das obrigações, dos compromissos, da condução dos próprios destinos pelo ganho do próprio sustento, também passamos por uma primeira aposentadoria. Divorciamo-nos do que os adultos preceptores denominaram de mundo dos sonhos, da fantasia, das brincadeiras, Ora, o que a pouca gente ocorre é que atividades faz-de-conta eram aquelas pelas quais ninguém pagava. Tanto é assim que aos poucos adultos que conseguiram transformar as atividades da infância em meio de sustento não se fala de sonho, de fantasia e de brincadeira, mas de trabalho.

Tornar-se adulto significou, na maior parte das vezes, a migração e subordinação para a regência do que Sigmund Freud chamou de princípio de realidade em oposição ao princípio do prazer. A nova ludicidade estava, agora, a serviço do outro, e que em troca a esse abrir mão de nós se mostrava disposto a pagar pela entrega desse tempo. No trabalho somos remunerados para satisfazer os desejos ou necessidades de quem nos paga.

Nada há de novo nisso. Encontraremos deuses representando essas fases de vida na chamada mitologia grega, e igualmente na romana. Não gosto da expressão mitologia, pois contém o pressuposto que o conjunto das crenças por ela estudado faz parte de um passado tomado como ignorância das pessoas, em contraposição às crenças atuais e tomadas como alguma forma de conhecimento. Não vejo diferença entre crenças antigas e modernas uma vez que, em essência, continuam sendo crenças e, no meu entender, continuam sendo mitos. Bem, não importa.

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O que é Dionísio – Baco para os romanos -, senão o deus da ebriedade, da entrega aos desejos, de uma vida guiada pelos sentidos, pelos impulsos? Muito disso define nossa infância e não
raro nossa adolescência. Nos dedicávamos às coisas que nos davam prazer, e principalmente às atividades compostas por imaginação e   sensibilidade   criativa.   Éramos romancistas, poetas, desenhistas,  pintores,  dançarinos, escultores,  músicos,  fotógrafos,  atores  e  cineastas. Éramos artistas. Nos dedicávamos às fantasias. Éramos heróis, piratas, guerreiros, navegadores, exploradores, conquistadores. Éramos aventureiros. Nos dedicávamos às descobertas da natureza. Éramos colecionadores de folhas, de insetos, de pedras. Fazíamos experiências misturando elementos e ficávamos atentos às modificações de cores e odores. Em decorrência disso inventamos os incêndios, as explosões e descobrimos as respectivas dores e ferimentos, além da sensação dos muitos choques elétricos. Quantas vezes estragamos panelas, pratos, copos e provocamos a queda de disjuntores do quadro de força? Bem, riscos inerentes a todos cientistas e desbravadores. Líamos, colecionávamos selos, moedas e cartões postais. Tínhamos mapas e reportagens geográficas. Tínhamos curiosidade em relação ao mundo. Em certa medida éramos intelectuais. Mais importante do que tudo isso, entretanto, era o fato de conduzirmos nossas “brincadeiras” de acordo com as regras que nós mesmos criávamos. Também importante lembrar que brincávamos para nós, e não para os outros. Como vivíamos a brincadeira na condição de realidade dela fazíamos realidade, mas para nós, sem performance para a vista de plateias.

Amadoristicamente, pois sem remuneração, ainda crianças e muitos de nós exercitava elevadas manifestações do espírito - arte, ciência -, e o fizemos com muita intensidade. Poucos, porém, como dissemos, conseguiram dar continuidade a essas manifestações ou delas fazer meio de sustento. A maioria abdicou dessas atividades, e sustentou-se com base em atividades que pouco ou nada tiveram de espontaneidade, de viço e de prazer. A maioria dedicou-se aos esforços repetitivos. Literalmente vendeu seu tempo para a realização de interesses dos outros. Como o único tempo que conhecemos e temos para dispor é o tempo existencial, pode-se dizer que vendemos parte de nossa existência, e recebemos salário em troca disso.

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Infelizmente, e para parcela significativa da população, a vida parece ter se iniciado na fase mecânica e repetitiva. Nem todo mundo teve infância regada pela iniciação das artes e das ciências, ainda que pela espontaneidade do próprio espírito, e tateando pelas trilhas do mais completo autodidatismo. Há quem nasceu sem alma, sem imaginação, sem vontade interior de explorar pelo menos o universo próximo, no alcance da ponta do nariz. Não estou aqui me referindo àqueles que as agruras da vida condenaram cedo para a docilização da mente e do corpo - no dizer de Michael Foucault -, mas visando o próprio sustento e não raro o da família. Há quem nasceu com a sensibilidade embotada e sem imaginação. Há quem nunca definiu regras nem mesmo para condução de pequenos hábitos cotidianos, e isso desde a infância. Normalmente os bonzinhos, os obedientes, as ovelhas.

Ah, mas os antigos gregos tinham deuses também para a fase de regência da vida pelo princípio da realidade, e que serve de esteio para as atividades profissionais. Hermes, que os antigos
romanos conheceram como Mercúrio, é um deles. Ele é o mensageiro dos deuses, Um intermediário, portanto, facilitador ou realizador do desejo de outros, de onde seu emprego simbólico no comércio, principalmente pelo caduceu que empunha, mas também pelas asas nas sandálias e no elmo, e que indicam a velocidade de suas ações ao longo dos caminhos que percorre. Em boa medida essa é a descrição de um trabalhador comum. Sempre correndo, levando e trazendo mensagens que contém elementos que ao fim e ao cabo satisfazem desejos de terceiros envolvidos nas atividades. Essa é a realidade na qual se estabelecem as relações de trabalho. Realidade, aliás, cujos parâmetros são definidos pelos mandarins das normas sociais e econômicas de nossas vidas individual e coletiva. Uma realidade definida como tal e que se dá independentemente de nosso desejo. Ao período anterior, como dito, e repleto de riquezas criativas, mas sem valor de troca, chama-se de mundo de fantasias, de sonhos, de faz-de-conta, mundo mágico das crianças. Desse mundo não se aposenta, mas se abdica, se renuncia em nome da realidade, isto é, da sujeição às normas, valores, pensamentos, sentimentos e ações que tenham valor de consumo, valor de troca no mercado de trabalho, em especial nas sociedades industriais, como insistia Herbert Marcuse. O homem precisou alienar de si para transformar-se pela racionalidade utilitária em mercadoria. É dessa realidade que ele se aposenta, mas como se esqueceu de como foi – se é que um dia o foi -, fica à margem de tudo, pois absolutamente desprovido de “utilidade”. Torna-se literalmente um “inútil”. Mais do que ser reprimido e domado pela realidade, o adulto sujeitou-se ao que denomino de mais-repressão da realidade, isto é, a uma lavagem ideológica que o convence da inadequação intelectual, sensitiva e ativa do período juvenil. A criatura acredita que “evoluiu”.


Interessante nos dias atuais é observar que os ilusionistas de plantão falam em sonhos como se eles tivessem algum poder mágico em tempos de utilidade operatória. Quem se der ao trabalho de ouvi-los notará o desejo de fazerem crer que a realização – operação de tornar real alguma coisa, - depende mais da capacidade de sonhar do que da manipulação dos elementos tomados como valor pela sociedade industrial. Também verdadeiro, logicamente, na indústria cultural, movida pela propaganda. Esses vendedores de ilusões falam no sonhar como uma “evolução”. Não lhes passa pela cabeça que possa ser uma “involução”. Sonho tornado realidade se deu em nossa infância e o tempo todo. Fomos imbatíveis nessa capacidade, e não precisamos de ninguém para nos ensinar. Na maior parte das vezes os adultos atrapalhavam.

Não bastasse isso e a constatação bizarra que até a ideia de sonhos vendida pelos prestidigitadores encontrados aos montes no mercado não vai além de um elenco de idealizações ao alcance dos bolsos daqueles dispostos a por elas pagar. Para dizer de outra maneira, além de comprar a ideia de que deve sonhar a criatura ainda compra sonhos prêt-à-porter a partir de uma lista deles, como se de um catálogo. São invariavelmente os mesmos: mesmos objetos, viagens para os mesmos lugares, mesmas “realizações”, etc. Na juventude algumas dessas criaturas costumavam ser ao menos mais criativas. Não a maioria, entretanto, que desde o passado não sabe criar, inventar os próprios brinquedos e nem as próprias brincadeiras. A maioria sempre viveu em torno do que se pode comprar. Caro ou barato, simples ou sofisticado, analógico ou digital, mas sempre pela compra.

Fato é que, para a maioria, a aposentadoria profissional e econômica se faz acompanhar da aposentadoria existencial. E ainda falam em melhor idade. Para a maioria jamais será a melhor idade, ainda que com muito dinheiro. Afinal, o que poderá com ele comprar? Perguntando melhor: o que poderá tanto aproveitar do que com ele comprar? Afinal, sonho, encanto, fantasia, elegância, requinte, sofisticação e outras qualidades do mundo sensível não são padrões de compra, mas de pessoas, ambientes e relações. De gente grosseira necessariamente resultará grosseria, e nada que o dinheiro possa amenizar. De gente imbecil necessariamente resultará imbecilidade, e nada que o dinheiro possa amenizar. Não se aposenta dos caracteres que definem os indivíduos, do caráter desses indivíduos. Bobagem, portanto, quem aposta as fichas do viver na aposentadoria, como se disso resultasse algum ganho certo. Depende da pessoa e das circunstâncias.

A retirada da vida economicamente ativa, portanto, em nada afeta a vida existencialmente ativa. Pode afetar o poder de consumo, mas jamais o poder de criação, principalmente para os que na infância e adolescência fizeram da sensibilidade criativa ferramenta de interação e operação com o mundo interior e exterior. Afinal, algumas capacidades podem se tornar diminuídas pelo desuso, mas nem por isso são extintas. É como andar de bicicleta.

Pouca gente, porém, se entrega a essa condição retrô de si mesma, incluindo as que têm condições de resgate da idade de ouro da própria existência. Fato é que bons escritores, atores, dançarinos, músicos, pintores, fotógrafos, desenhistas, escultores, ceramistas, naturalistas e cientistas não foram além da fase espontânea da juventude e lá deixaram essas qualidades, cada vez mais raras na sociedade contemporânea.

Assim pensando me parece que quem se afasta de atividades, remuneradas ou não, por conta de aposentadoria, o faz por decisão própria. Afinal, exceto por alguma severa restrição física ou mental, e a ninguém está negada a oportunidade de dar continuidade ou mesmo início a alguma atividade, seja ela remunerada ou não. O que não cabe, e sob nenhuma justificativa, é a pessoa aposentar de si.


 Rogério Centofanti

São Paulo, 25 de abril de 2016.