domingo, 11 de fevereiro de 2018

Os públicos do mercado da banalidade digital


O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.
Umberto Eco

Um velho amigo – e nos dois sentidos do termo - parabenizou-me pela conversão ao WhatsApp. Só espero que não pense que irei render-me também aos encantos do Facebook, do Instagram, do Telegram, do Twitter, do Hangouts, do Messenger ou, quem sabe, do antigo Orkut. Deu-me boas-vindas ao “mundo real”.

De fato, o mundo real está dominado por WhatsApp, Facebook, Instagram, Telegram, Twitter, Hangouts, Messenger e outros aplicativos de “comunicação”, e que nos incluem digitalmente nas redes sociais por meio de hardwares de altíssima tecnologia: computadores, Tablets e principalmente pelos moderníssimos Smartphones.

Meu ingresso no WhatsApp, entretanto, deu-se como consequência de um Smartphone que ganhei de presente. A gentileza motivou-se pelo fato de, na engenhoca, ligações por meio do WhatsApp serem gratuitas, ao menos quando funcionam e por enquanto, fato significativo nestes tempos bicudos. Não foi isso, possivelmente, o que deve ter ocorrido ao meu amigo, senão o fato mesmo de minha inserção no “mundo real”. Um velho moderno em consonância com seu tempo? Espero que meu amigo não seja movido por esse tipo de mentalidade em relação a si, e muito menos em relação a mim.  Afinal, o mínimo que se pode esperar de sujeitos como nós, e em nossa idade, é o exercício da crítica, ao invés da adoção de medidas tomadas como modernas apenas para que não pareçamos obsoletos. Não temos mais idade para sermos movidos por mero contágio, e menos ainda para nos importarmos com o que possam pensar sobre nós.

Como resposta às minhas resistências quanto aos conteúdos idiotas que circulam pelas redes, o amigo contrapôs o argumento em voga: que essas “ferramentas” não são do bem e nem do mal, e que a qualidade dos conteúdos reflete a qualidade dos usuários. Disse o mesmo quando reclamei que as tecnologias servem para comunicações breves, mas não para produção e difusão de conhecimentos.

- Essas produções espelham o usuário, disse-me.

Não. Não espelham. Essas tecnologias portáteis limitam o usuário dentro dos destinos para os quais foram concebidas: comunicação curta e rasa, e em boa parte das vezes sem a necessidade do emprego de palavras. Aliás, cada vez mais sem a necessidade de entender ou fazer uso de palavras. Comunica-se por meio de Emotions, carinhas animadas que expressam sentimentos que o usuário não seria capaz de elaborar por meio de palavras, ou o destinatário capaz de decifrá-las. Além disso, pode-se comunicar pelo envio de áudio e de imagens, eliminando a necessidade de alfabetização para o uso dos dispositivos. Como dizer que disso possa resultar conhecimento? Até mesmo o teclado não foi dimensionado para o manuseio de letrinhas. “Cata milho” absolutamente despretensioso ao pé de um monitor diminuto. Como produzir conhecimento nisso?

Posso antever meu amigo reclamando que conhecimento não precisa ser extenso, que pode ser curto, lembrando dos microcontos, minicontos ou nanocontos.  É verdade, mas quanto menor o número de palavras, maior a necessidade de densidade no pensar. Encontra-se isso? Quando muito na prática habitual do copiar-colar de frases de autores célebres. É um tal de citar frases de famosos! Dá “pinta” de intelectualidade. Aliás, como desconhecem os autores, e copiam uns dos outros, muitas vezes publicam frases que nem mesmo são de autoria dos nomes a elas associados. Pior: já existem sites e blogs especializados na disponibilidade de frases de famosos. Basta copiar. Será isso conhecimento? Serão os internautas nanocontistas? Adeptos de um minimalismo conceitual e metodológico? Certamente não!

Agora, de uma coisa o velho amigo está absolutamente certo: são tecnologias encontradas em quase todos os cantos do mundo real, e que chegaram para ficar. Incrível, mas o “mundo real” tornou-se a expressão do “mundo virtual”. Como zumbis, pessoas de diferentes estratos socioeconômicos estão nas ruas, praças, restaurantes, escolas, igrejas, shoppings, trens e ônibus, “ligadas”, “plugadas” em seus Smartphones. Fones de ouvido, olhos no minúsculo monitor e dedos ágeis atuando sobre o micro teclado. O que estão fazendo que não seja receber e emitir mensagens breves? Troca de produções nanocontistas? Pouco provável. O que mais que não seja assistir vídeos do Youtube com destaque aos que estão “viralizando”, “bombando” pelas redes? Custa acreditar, mas “teclam” uns aos outros até mesmo quando estão fisicamente presentes em um mesmo ambiente, como na mesa de um bar, por exemplo.

Não há conhecimento, puxa, exceto para quem acredite que informações curtas e superficiais sejam modelos do saber na pós-modernidade. Exceto para quem acredite que o opinionismo vulgar e que prolifera pelas redes seja sinônimo de conhecimento. E há mesmo quem imagine que o conhecimento no mundo real sejam fluxos de opiniões, inclusive nas mídias de notícias, onde recebem o nome infeliz de “jornalismo opinativo”. As próprias mídias investem na difusão desse engano, propagando a imagem dos “formadores de opinião” como exemplo de gente “formada”. Mentira! Na melhor das hipóteses gente “informada”. Assim, na dimensão do consumo – e apenas nessa dimensão – pessoas que querem ser vistas como formadoras de opinião compram Smartphones, consomem softwares de “informação” (textos, áudios e vídeos) e mensalmente pagam pelas conexões, de modo que toda essa maravilha ganhe concretude. Inclusão, portanto, no plus das contas a pagar com regularidade: aluguel, condomínio, água, luz, gás e internet, talvez na qualidade de “combo” – telefone, televisão por assinatura e internet. Pouco tempo depois e tudo se torna obsoleto. O ciclo se repete, se repete, se repete, e eis o mundo real, que nada tem a ver com conhecimento.  Apenas capítulo de consumo e dependência. É assim, não é, que a operação casada de hardwares e softwares nos incluem no consumo dessas coisas, e das quais nos tornamos dependentes, como acontece com crack, cocaína e outras drogas? Interessante é que contra esse vício, essa dependência, ninguém se insurge.

O que venho dizendo até aqui não se aplica genericamente à informática e internet. Para quem gosta e sabe pesquisar, a rede, pelo seu caráter global, é poderosa porta de acesso ao universo do saber. Temas, autores, livros, artigos e mesmo pessoas veiculadas ao consumo e produção de saberes. Nessa medida, um computador, alguns softwares e conexão são o suficiente para que uma pessoa possa ligar-se a um mundo igualmente real – o do saber –, e com a vantagem da interação por intermédio de E-mail, ou quando muito de Skype. Foi assim: um Personal Computer (PC), um sistema operacional, um editor de texto, um editor de imagem, uma planilha e uma conexão “discada”, e o mundo se abria sem que saíssemos de casa. Um pacote caro, a época, e utilizado por quem com ele tivesse o que fazer nos planos intelectual, artístico, científico e profissional. O início do uso como “entretenimento” surgiu com os Games, e como interação social com os Chats de relacionamentos. Foi rápida a passagem para vídeos, e portais de notícias. Mais tarde a possibilidade de compra, venda, consultas e operações bancárias. Foram essas novas utilidades que ampliaram a faixa de usuários, e que em nenhum momento tiveram por apelo a busca, produção e troca de conhecimentos.

Empresas e instituições de ensino desenvolveram seus Sites, embora como meras ferramentas de Marketing, visando a promoção fabricada da própria imagem, mas não como fonte de saber. Essa vulgarização levou ao consumo de massa, que nem sabe o que seja um editor de texto e uma planilha. Do “aparelhinho” interessa obter fotos, vídeos, áudio, e o uso dos tais softwares de comunicação como meio de interatividade: WhatsApp, Facebook, Instagram, Telegram, Twitter, Hangouts, Messenger, Youtube, LinkedIn, etc. Nada, absolutamente nada que gere e promova conhecimentos. Apenas a oportunidade para qualquer pessoa se tornar proprietária e produtora de seu próprio “canal” de comunicação. O que pode sair disso? Preconceito, dirá meu amigo. Não! Basta ver o que é produzido, reproduzido e “compartilhado” nessas mídias. Conceito, portanto! Afinal, se de acordo com meu amigo tudo depende do usuário, basta observar o que fartamente se encontra como produto dessa dependência: conteúdos sofríveis, lamentáveis, e prova inconteste da superficialidade, pela lógica de meu amigo, do que muitos concebem como conhecimento. Afinal, dinheiro compra tecnologia, mas não os conteúdos por meio dela produzidos. Nessa medida, cada qual só pode expor o que dispõe, na maior parte das vezes os conteúdos pequenos e rasos da própria existência. Eis o motivo pelo qual a imensa maioria dos usuários imita e “compartilha” o que não é capaz de criar, e que se apropria daqui e dali sem a menor cerimônia. Aliás, imita até mesmo a aquisição desses aparelhinhos e seus empregos. Afinal, se todo mundo tem? Macaco vê, macaco faz. Macaquismo, inclusive, na competição entre os “modelitos” de Smartphones disponíveis no mercado. Afinal, existem os genéricos, e os das “pessoas de sucesso”.

Pela drástica redução de custos as mídias digitais praticamente decretaram o fim das mídias impressas, com isso alcançaram um número imensamente maior de “leitores”, ao mesmo tempo que se adequaram às características dessa massa, a saber: interessada em banalidades da vida política, nas notícias policiais, na moda ao seu alcance, nos tratamentos “alternativos” nos planos da saúde e da estética e no mexerico em torno das “celebridades”. Além disso, mídia digital criou espaço para interação, para “comentários”, onde o exercício do opinionismo do “internauta” corre solto - “eu acho que...”. Ah, podem “curtir”, logicamente. Também em virtude do interesse das pessoas, e sobre os mesmos da imprensa digital, se desenvolvem os conteúdos das programações de TV, hoje multiplicadas com o advento da TV Digital aberta, a elas somados os incontáveis programas e canais “gospel”. Pois bem: na lógica do macaquismo, esses são os temas e conteúdos que as pessoas reproduzem em suas próprias “páginas”, Blogs e canais, e eis em ação a famosa relação dialética entre o ovo e a galinha. Apesar da aparente heterogeneidade, o “mundo real” nunca foi tão pobremente homogêneo.

Como se vê, grande negócio para produtores e comerciantes dessas tecnologias, assim como para empresas que exploram as conexões. Não há ganho existencial e nem social para os consumidores, também chamados de usuários ou internautas. Apenas mais um fenômeno de mercado.

Nada contra, também, as comunicações rápidas, para as quais esses aparelhos foram em tese desenvolvidos. Afinal, o cotidiano nos coloca o tempo todo diante da necessidade de troca de informações breves de caráter pessoal, social e profissional. Combinamos encontros, avisamos que iremos nos atrasar, dizemos se vamos ou não fazer alguma coisa, e assim sucessivamente.  Nada errado em uma mensagem de áudio ou mesmo de vídeo. Por que não se fazer presente diante de uma pessoa amiga por meio de um selfie? Por que não enviar uma mensagem romântica para a namorada? Uma música? Por que não? Por que não uma pitada de humor? A tecnologia presta-se e bem para essas formas de comunicação, mas para boa parte dos usuários ela sai da esfera da relação privado-privado e imbecilmente avança para a relação privado-público, e que é para o que alguns dos famosos softwares se destina. Exemplo disso é o Facebook, por meio do qual as pessoas “promovem” publicamente a própria imagem, e em caráter global. Incrível: enquanto o direito à privacidade se coloca como uma das mais importantes conquistas do homem, os “modernos” dele abdicam e expõem a banalidade da vida privada para apreciação pública. Verdade que, na maioria das vezes, uma exposição arranjada, mentirosa nas palavras e nas imagens – como se enganasse a quem conhece o exposto -, mas como em uma espécie de baile de máscaras ou jogo coletivo me-engana-que-eu-gosto reproduzem o que as mídias de mexerico fazem com “celebridades”. Inacreditável, mas os imbecis imaginam-se na condição de celebridades, e se comportam como aspirantes à condição de celebridades. Célebres, sem dúvida, na imbecilidade, e convencidos de que “bombam”.  Afinal, os “amigos” “curtem”.

O problema maior nem mesmo é que fazem, mas o cenário, clima e personagens que adotam para divulgar os fazeres: a altivez de operário em supermercado no dia da compra do mês, a indisfarçável desonestidade dos moralistas, a hipocrisia nativa dos devotos, a incongruência dos casuístas, a luxúria nem sempre sutil das sonsas, o vazio intelectual dos cínicos, a diplomacia dos políticos, a sensualidade brega das piriguetes, a indignação diante dos apelos que estiverem na moda, a cultura supérflua e imitativa dos apresentadores de TV, o humor grosseiro dos toscos, a cópia dos piores modelos de expressão de romantismo e espiritualidade, a ostentação de consumo dos novos ricos, o bravatismo dos covardes, o justiceirismo dos ignorantes e a mais completa incapacidade para criar algo que possa chamar de seu. O que se pode esperar, como antes questionei, de quem voluntariamente transforma os episódios da vida privada em grotescos eventos da vida pública?

Ajustado aos padrões do que se resolveu denominar de “politicamente correto”, meu amigo dirá que este texto nada mais é do que um rosário de preconceitos. Afinal, se existe termo que bem se presta para inibir críticas e legitimar besteiras que todos podem ver, mas que por conveniência não apontam, é preconceito. E assim, de tolerância em tolerância, de aceitação em aceitação, de inclusão em inclusão, vamos todos nos adaptando, nos ajustando às banalidades digitais. Afinal, mesmo sendo velhos, somos todos consumidores potenciais das bobagens tecnológicas da modernidade. Agora, conhecimento? Francamente!!!

Rogério Centofanti
São Paulo, setembro de 2017