Se o senhor não está
lembrado
Dá licença de contar
Que aqui onde agora
está
Esse edifício alto
Era uma casa velha
Um palacete abandonado
Saudade Maloca –
Adoniran Barbosa
Há uma ideia difusa, bastante genérica, que projeto de Memória diga respeito a qualquer atividade relativa ao passado de instituições, atividades, realizações, lugares, coisas e pessoas. Não é bem assim. Junto a esse equívoco, o emprego do termo memória surge como se dotado de entendimento “evidente”. Também não é bem assim. A presença da ideia e da crença na evidência do termo costuma gerar certo mal-estar quando da discussão de projetos de memória social de instituições, atividades, realizações, lugares, coisas e pessoas, em virtude do que chamo de um quase inevitável choque de expectativas. Muitas vezes, inclusive, confundem História e Memória como se fossem sinônimos. Não são.
Em virtude dessas experiências às vezes
constrangedoras, resolvi escrever esta breve crônica, na esperança que ela
possa alimentar reflexões. Nela procurarei de maneira simples expor meus
pontos de vista, mas sempre com a consciência da existência de outros, quiçá
melhores.
Bem, vamos às considerações!
Em carta escrita em 1913 e endereçada a
Godofredo Rangel, Monteiro Lobato, o paulista ilustre e hoje vilipendiado pela
acusação de racismo, dizia que “a história dos historiadores coroados pelas
academias mostra-nos só a sala de visita dos povos”. Quanto às memórias, relativas
à humanidade, diz Lobato que elas nos mostram sua “alcova, as chinelas, o
penico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal”.
Fonte Wikipedia |
Creio que Lobato coloca em 1913, e “sem
fazer sala”, o que encontramos nos dias de hoje, embora sem a lucidez e a objetividade
do velho mestre. De um lado a versão “oficial”, asséptica, primorosamente
bordada de felicidades e de glórias, sala artificialmente decorada para causar
boa impressão aos visitantes, e de outro a versão espontânea que passa pelas
alegrias, mas também pelas tristezas, pelas simpatias, mas também pelas
antipatias, em resumo, pelo antagonismo das forças que cunham as nossas
crenças, nossos sentimentos e certamente nossas percepções. Eis a alcova, as
chinelas, o penico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o
quintal, o interior que no cotidiano se fecha ao olhar dos visitantes.
Interessante notar que ao tempo de
Lobato não existia ainda o Marketing
e nem o Promoter, figuras modernas
que vivem do fabrico e da venda de imagens, e que mesmo diante da consciência pública
da artificialidade de suas “promoções” ainda assim fazem sucesso. Ao tempo de Lobato,
porém, iniciava-se a propaganda, os “reclames” e, bem antes disso, certamente, a
“história dos historiadores coroados pelas academias”, isto é, pelos arquitetos
de versões tornadas oficiais, que passaram pela sua época e que perduram até
hoje.
A título de demonstração, apenas, ocorre-me comparar na pintura
duas obras que acompanham as diferenças por Lobato apontadas em prosa. A
primeira Independência ou
Morte,
pintada em Florença, no ano de 1888, pelo paraibano Pedro Américo de Figueiredo
e Melo, por encomenda do governo de São Paulo. Uma bela obra, sem dúvida, mas
ajeitada para representar um “marco”, “momento histórico”, “gesto heroico”, “instante
épico”. No dizer de Lobato, seria a sala de visita de um povo, criada para
formar no espírito uma ideia que ficará gravada no imaginário de gerações de
brasileiros. Em analogia ao dizer de Lobato, pode-se dizer que aqui se pretende
fazer História. Teria sido essa a cena do “grito”? Ao que parece não foi, mas nunca saberemos ao certo.
Fonte Wikipedia |
Muito desse tipo de “arranjo” tem sido
feito em nome da “Memória”. Há uma nítida confusão em fazer Marketing sobre
realizações de projetos memoriais, isto é, promover a imagem da entidade
patrocinadora do evento, com o fazer dos conteúdos uma expressão de Marketing, isto é, de promoção de pessoas ou
instituições objetos do enredo. Isso é muito comum nos projetos empresariais, cujos resultados
são edições caríssimas, na maior parte das vezes contendo apenas imagens, e que
servem exclusivamente para distribuição na forma de “brinde”, de uso como
“adorno”, mas sem valor histórico e cultural. Evidente que há um marketing
cultural, desportivo e ambiental, mas isso diz respeito à busca de valorização
de uma dada “marca” pelo que investe em cultura (memória), esporte e ambiente,
e nada há contra isso. Quem, entretanto, está interessado em pessoa,
instituição ou atividade como “peça” de Marketing? Ninguém, e esse é o motivo
pelo qual os riquíssimos livros de “Memória” de empresas são distribuídos como
brindes, e depois, para alegria de papeleiros, tornados objetos de descarte.
A segunda obra, à esquerda, chama-se Saudade, do paulista José Ferraz de
Almeida Júnior, exposta na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Exceto pelo fato
de ser igualmente
um quadro a óleo sobre tela, e nada mais tem em comum com Independência ou morte. Não se trata de nenhuma
encomenda de governo com a finalidade de criar ou promover um ato heroico. Aliás,
ao que se sabe nem mesmo foi pintada por encomenda. Retrata um sentimento que é
conhecido de todos, e que pode ser vivenciado por todos: saudade. São as
chinelas de que falava Monteiro Lobato, a humanidade que nos aproxima ao quadro
pela identidade. Aqui se pretende memória. A moça, uma desconhecida mulher de
fazenda, mas o sentimento que expressa é universal, e atemporal. O sentimento
que ela expressa pode ser compartilhado por todos nós, de onde seu caráter
social.
Fonte Wikipedia |
Sim, isso é memória, atributo de cada um
de nós, e na maior parte das vezes recheada de afetividades, algumas alegres,
outras tristes, e que nem sempre gostamos de evocar. Muitas vezes nem mesmo as
alegres, pois invariavelmente dizem de um tempo que não pode ser reproduzido,
exceto na lembrança. O que dizer, então, das tristes? De circunstâncias que não
temos como mudar? Na maioria das vezes lembranças que trazem dor, culpa e
arrependimento. Amor e ódio, orgulho e humilhação, enfim, o reviver de todas as
vicissitudes possíveis nos vastos limites da humanidade. Sim, lembrar é
reviver.
Por que, então, essa humanidade
espontânea quase nunca é adotada como caminho em projetos memoriais?
Habitualmente por dois motivos. O primeiro porque se faz a partir de anônimos,
de gente sem “notoriedade”, e o segundo porque essa gente não tem verniz, e os
adeptos do memorialismo feito em sala de visitas temem que mostrem a alcova, as
chinelas, o penico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o
quintal de que falava Lobato. Acredite quem quiser, mas nunca estive em “saia
justa” diante desse modelo. Já não posso dizer o mesmo quando diante de egos
imensos, quando das memórias o que interessa ao entrevistado, é apenas o palco
para o espetáculo das fogueiras das vaidades.
Essa é a razão principal pela qual
recomendo que projetos memoriais sejam edificados em torno de partícipes desinteressados,
digamos assim, dos que não precisam fazer da participação uma escada para outra
finalidade. Recomento resgatar memórias de uma igreja pelos fiéis, de um clube
e associação pelos associados, de um sindicato pelos trabalhadores da categoria
por ele representada, de uma escola pelos alunos, e assim sucessivamente. Como
queremos saber do passado, certamente pelo resgate de memória de antigos fiéis,
associados, trabalhadores, alunos, etc. Eles estiveram presentes nesse passado
que nos interessa, viveram momentos desse passado, têm lembranças, e muitas
vezes fotografias, cartas, uniformes, e outras coisas que testemunham esse
passado, mas na condição de testemunhas vivas. A isso chamo de bom modelo de
projeto de Memória Social. Não falseia e não impede a revelação de humanidade
contida na História de instituições, pessoas e atividades. Afinal, sempre
importante lembrar que, na maior parte das vezes, não estamos falando do que foi, mas do passado do que
ainda é. Queremos apenas saber como foi, o que hoje muitas vezes continua sendo, embora,
talvez, com outras peculiaridades.
O problema dessas versões chics de Memória, na maior parte das
vezes traduzidas em obras caríssimas e produzidas com apelo quase
exclusivamente visual, tornam-se moda a ser seguida. Desse equívoco resultam,
já que falamos em moda, duas tendências: muitas instituições acreditam não ter
condições econômicas para lidar com projetos de memória; enquanto muitas outras
acreditam que lidar com Memória não tem ciência e, dessa maneira, fazem o que
bem entendem. Não conheço instituição capaz de promover projeto dentro dos
preceitos teóricos e metodológicos de Memória Social, e ao mesmo tempo capaz de
atender ao binômio da boa qualidade e bom custo. Normalmente tratam tais
projetos dentro dos limites do Marketing ou do Jornalismo, isto é, como
promoção ou notícia. Raramente, porém, nas tênues fronteiras da História e da
Literatura. Há, ainda, os que se limitam a arquivar, tendência que tem
aumentado: gravam e degravam entrevistas em áudio, gravam entrevistas em
vídeos, armazenam fotos e outros objetos dos entrevistados, na esperança que
“um dia” esse material seja fonte de pesquisa para historiadores e
memorialistas. Talvez!
Algumas outras coisas devem ser também consideradas.
O fato de hoje as tecnologias de
gravação de áudio e de imagens estarem ao alcance de quase toda gente, nada
mais significa do que apenas isso: acesso fácil e econômico a essas
tecnologias. Pode-se dizer o mesmo das facilidades de acesso, produção, edição
e publicação de conteúdos pelas redes sociais: apenas facilidades. Todas essas
maravilhas, porém, são meios, apenas meios. Gravar e degravar têm dois
trabalhos: o de gravar e o de degravar. Gravar em vídeo e guardar tem dois
trabalhos: gravar e guardar. Arquivar coisas tem dois trabalhos: organizar e
arquivar. Onde, porém, está o trabalho memorial?
Entrevistar pessoas significativas, isto
é, que tenham vivência com o que se pretende resgatar por meio de suas
memórias, é muito mais do que colocar diante delas colocar um gravador ou
filmadora e apertar a tecla rec. Um
dos zelos com entrevistas dessa natureza consiste em resgatar vivências que vão
além do reduzido foco do interesse temático, isto é, de tratar o entrevistado
como se diante de inquérito policial, pois o que se resgata é memória de vida
(biografia), dos vínculos diretos com o foco de interesse, mas também com o
contexto social, cultural, econômico e talvez político em torno do vínculo
restrito.
Lidamos com memória afetiva de pessoas,
e não com memória do disco rígido de um computador ou de documentos guardados
em algum arquivo físico. Não estamos fabricando imagens, e tampouco registrando
notícias que se tornarão descartáveis no dia seguinte. Estamos construindo algo
que deverá perdurar no tempo, e no futuro se tornar fonte de pesquisa para
historiadores, — de onde a importância de cuidados teóricos e metodológicos —, mas
na condição de trabalho que tem começo, meio e fim, isto é, de onde cada
entrevista, com depoimentos e material emprestado para aproveitamento (fotos,
documentos, etc.), ser uma unidade de trabalho devidamente concluída, dispondo
assim de autonomia, embora capaz de conjugar-se a outras de mesma matriz.
O trabalho memorial, portanto, não
consiste apenas em gravar, degravar, organizar e arquivar, mas em realizar uma
obra memorial, da qual ele, memorialista, é o autor. Também faço emprego de
gravador, mas para que o conteúdo gravado sirva de fonte para mim, e não para
divulgação a terceiros. Também solicito fotos e documentos de propriedade de entrevistados,
mas a título de empréstimo para que eu possa reproduzi-los, mas jamais irei
divulgar a terceiros, mesmo sendo reproduções, sem a devida autorização do
proprietário. Terminado o trabalho e ele será primeiro apresentado ao
entrevistado, e depois publicado apenas se ele autorizar. A obra é do memorialista,
mas as memórias são do entrevistado, razão de ser citado, e de nada ser
publicado sem a sua concordância. Se não interessa fabricar herói ou mártir, interessa
preservar a imagem pública do entrevistado. Afinal, gente que nos recebe na
cozinha, nos serve café e, de coração aberto, compartilha não simplesmente informações,
mas vivências, eis aí algo que merece todo o nosso respeito.
Não é raro, além da unidade memorial
devidamente concluída e entregue, que clientes queiram também o material
gravado, fotos, e outros recursos que serviram de fonte para a realização do
trabalho. Bem, eu não entrego, e o motivo é simples: o vínculo com a pessoa
entrevistada se deu comigo e, nessa medida, eu sou o responsável por tudo que me
foi cedido a título de confiança. O cliente receberá material que poderá
divulgar por meio eletrônico ou impresso, previamente autorizado para esse fim
pelo entrevistado, mas apenas isso. O que faço com o material primário? Apago
ou entrego ao entrevistado, pois esse é meu acordo com ele. Aliás, não
recomendo a clientes que arquivem e muito menos que divulguem áudio e vídeo.
Talvez um trecho, um pequeno trecho, significativo, mas não mais do que isso, e
mesmo assim com autorização expressa do entrevistado.
Pelo fato de o trabalho memorial não ser
produto de descarte, não faz sentido registrar conteúdos em mídias que sofrem
constantes variações tecnológicas, pois sempre há perdas quando os conteúdos
são recuperados, do celuloide ao vhs e
deste para o digital, por exemplo. Além disso, produção de áudio e vídeo oscila
do minimamente amador ao mais refinado profissionalismo. Essa diferença passa
pela quantidade e qualidade técnica de pessoas envolvidas, até a igual
quantidade e qualidade de equipamentos empregados. Com essas mídias a qualidade
está necessariamente associada ao custo. Confiar a imagem do entrevistado e o
conteúdo da entrevista a um produto amador e mal feito é falta de respeito. Com
essa convicção, recomendo sem temor a adoção de mídias gráficas, sejam virtuais
ou impressas. Bom lembrar que, desde
Gutemberg, os assim chamados gêneros textuais permanecem passíveis de
conservação e de reprodução, preservando seus conteúdos interiores, independente
de quanto se queira com isso gastar. Não me parece haver lugar para modismos em
projetos memoriais.
Rogério Centofanti
São Paulo, agosto de 2016