domingo, 22 de abril de 2018

De volta ao passado



Eu pego você pelas mãos como um raio
E saio com você descendo a avenida
A avenida é comprida, é comprida, é comprida...

Luzia Luluza – Gilberto Gil


Depois de cinquenta anos fora de minha São Paulo, e não há como descrever esta sensação mista de estranhamento e agradabilidade gerada por estar novamente em meio às ruas, esquinas, praças, prédios, monumentos, pessoas, sotaques e paisagens, que em boa medida emolduraram parte de minha vida. Foi aqui, em pequeno apartamento no vale do Anhangabaú, que passei alguns poucos anos da adolescência.

Nestes aproximados cinquenta anos fora da cidade, e mesmo do país, pude me manter informado sobre os acontecimentos e mudanças pelas quais passou a metrópole, principalmente em períodos mais recentes, quando as tecnologias digitais nos puseram quase ao vivo diante de qualquer lugar do mundo. Neste instante tenho a São Paulo aberta ao exercício de todos os sentidos. Eu sinto São Paulo. É um reviver de presença, com a mais completa certeza de que ela é a mesma, mas ao mesmo tempo outra. Ela mudou, mas não mudou. Como eu. Aquele mesmo, mas outro. Ah, como tento em vão convencer parcela de meus amigos que bom não era o velho e bom tempo, mas sim a nossa juventude naquele tempo. Força, viço, energia e o que mais necessário para convencer a nós mesmos de que éramos imortais. Éramos tão senhores do tempo que poderíamos nele, e a qualquer momento, sermos o que bem desejássemos. Com essa convicção vibrávamos no presente com intensa vivacidade, incluindo a constante volúpia do desbravamento rumo ao desconhecido, ainda que por um bairro contiguo. Afinal, naquele tempo descobria-se as coisas ao vivo e em cores, ou pelas páginas das poucas revistas e preciosas enciclopédias.

Mas que mania esta, a minha, de ficar filosofando sobre vivências do cotidiano. Bem, mania que me acompanha desde a juventude, e neste mesmo lugar. Mania dos sós, dos que conversam consigo mesmos, e que têm a si próprios como compartilhadores de experiências. Cena mágica, esta, a de subir pelas escadas rolantes da estação do Metrô na praça da República, do lado da avenida Ipiranga, e desde baixo ver o edifício Itália, que já existia, mas nunca visível por esse ângulo cujo vértice se inicia no subterrâneo da praça. Surgia, agora, enquadrado em meio a um luminoso céu azul envolto por nuvens brancas. Lindo, majestoso, surpreendente. Quando poderia imaginar isso no passado? Bem, isso ocorreu ao longo da década de setenta, e eu daqui me fui ainda na vigência da de sessenta.

As ruas transformadas em calçadões me pareceram uma excelente ideia, pois me ocorre que por elas circulavam automóveis que estacionavam junto ao meio fio. Pelo que soube, entretanto, a inovação não foi além destas poucas iniciativas. De qualquer forma, o centro está mais amigável do que dele consigo me lembrar, no que diz respeito às ruas vertidas em calçadas, mas inamistoso no que se refere ao estar, uma vez que não há bancos confortáveis onde soltar-se e apreciar o ir e vir das pessoas e do vento. Andar a pé pelo que um dia foram leitos de veículos é gratificante, especialmente na minha idade, quando o corpo não é tão obediente à vontade. Mesmo assim, calçamentos desnivelados e descuidados mostram que há muito por ser fazer, a começar ao lado do que é hoje o bunker do prefeito, e que no passado foi edifício-sede das indústrias Matarazzo. Os calçamentos já eram ruins, e muito se reclamava do serviço de coleta de lixo. Ah, sim: o lixo era colocado na calçada para coleta dentro de latões com tampas. Bem, nem sempre com tampas.

A grande remodelação pela qual passou o vale do Anhangabaú no início da década de oitenta, foi a fantástica iniciativa de jogar todo o intenso tráfego de automóveis e ônibus para a dimensão subterrânea, transformando a imensa laje ali construída em um bulevar. Por outro lado, e ao menos para o meu gosto, também sem lugar para que as pessoas possam estar para o prazer gratuito da conversa jogada fora ou da simples leitura de um livro ou jornal. Tornou-se um descampado público, mas sem público. Não se encontra gente flanando nem mesmo no antigo e agradável jardim ao lado do Teatro Municipal, pois não há onde descansar.

Por falar no teatro, perco o fôlego quando à sua frente ou nas laterais, bem como diante de outros edifícios que mantiveram características originais. Já não são tantos e, pelo que vejo dos que se denominam modernizados, a maioria cedeu lugar a caixotes despersonalizados e tornados banais pelo emprego da mesma ausência de formas expressivas e identitárias. Caixotes compostos pelos materiais baratos disponíveis nas lojas de insumos para construção, e erguidos sob a concepção desafortunada de arquitetos e engenheiros sem espírito, aos quais não se pode nem mesmo elogiar a reclamada racionalidade funcional. Que pena. Chamam a isso de revitalização, como se dar nova vida fosse sufocar o que resiste com elegância e dignidade à passagem dos anos. Triste saber que vereadores da capital quiseram alterar o nome do viaduto do Chá, adicionando-lhe como complemento o nome de ex-político de São Paulo. Parece que o atual prefeito, um marqueteiro que se apresenta como empresário, tem ideias não menos extravagantes para o viaduto Santa Ifigênia.

Passadismo? Não. Apenas a mais nítida consciência de que a voga dita contemporânea, e que consiste em demolir símbolos do passado, serve apenas aos interesses daqueles que lucram com o que se destrói e em seguida com que se repõe com valor inferior, mas a preço superior. Bem, só fui aprender que modernidade nada tem a ver com mudança de aparências – e ainda mais para pior – depois que de São Paulo mudei-me para uma das cidades mais civilizadas do mundo, e em meio a mentes modernas coexistindo com tradições, de onde o traço presente da civilização que construíram e preservaram. Aqui, porém, o que se pode esperar em relação isso? Nada! Não se sabe nem mesmo o que é velho e antigo.

Também percebi o quanto mudou a vocação social e econômica do velho centro. Aliás, não sei diferenciar o que chamam de centro velho e centro histórico. No passado havia nele um número menor de estabelecimentos comerciais, porém mais personalizados. Aqui se concentravam as melhores drogarias, perfumarias, tabacarias, relojoarias, lojas de tecidos, de louças e de instrumentos musicais, alfaiatarias, sapatarias, joalherias, livrarias, docerias e inclusive restaurantes. Casas, no dizer da época, e apenas mais recentemente chamadas de lojas, onde se vende de tudo, onde produtos diferem nos preços, e isso quando diferem. Bem, não existia esse atual oceano de mercadorias. Exemplo disso no meu tempo, e naquele local, a Casa Anglo-Brasileira, que sucedeu o Mappin Stores e suas lojas de departamentos, uma versão sucedânea dos shoppings, e que fazia sucesso no edifício de esquina da praça Ramos de Azevedo e lateral à frente do teatro Municipal. Bem verdade que o Mappin foi sofisticadíssimo quando chegou a São Paulo em 1913, praticamente inaugurando o requintado hábito social do chá da tarde entre as damas paulistanas, e só comercializava produtos importados, mas isso quando na rua XV de Novembro. A vertente loja não foi diferente com a Sears Roebuk S/A, na rua 13 de maio e na praça Oswaldo Cruz, com seus planos de crediário. Nem mesmo a sede da Energia Light, instalada no edifício Alexandre Mackenzie, inaugurado em 1929 no viaduto do Chá com a rua Xavier de Toledo, deixou, no tempo, de render-se à geração shopping, embora em dias mais recentes. Raízes da cultura do consumismo e do passageiro, isto é, do que está sempre passando, consumindo e seguindo. Come-se de pé, bebe-se de pé, compra-se de pé, e volta-se ao ciclo da perpétua passagem. Afinal, até as emoções foram ajustadas ao princípio -  como aqui se diz - de que a fila anda. Fast emotions. Que pena.

Mas, do que estou falando? Pena do que e de quem? Certamente não de mim, pois não mais voltarei a aqui viver. Mesmo assim não resisti deixar de ver de perto alguns lugares, a começar pelo prédio no qual residi. De fora, é verdade, pois agora transformado em edifício comercial. Escritórios, na maioria das vezes. Soube disso pelo porteiro, e que nem mesmo imaginava que o edifício foi um dia local de residências.

Mudei-me para cá com minha mãe. Vínhamos do Brás, onde eu havia nascido e morado até então com meu avô, que era viúvo, e minha mãe, que era solteira. Formada em jornalismo foi à França participar de um curso de especialização, e voltou comigo no ventre. Meu pai, dizia ela, era um jovem francês estudante de literatura. Nunca tivemos contato, mas sei que minha mãe mantinha com ele algumas correspondências.

Vínhamos de uma pequena vila operária, com casinhas geminadas, de parede meia, em um beco sem saída, o que dele fazia paraíso a garotada que tomava posse sem maiores preocupações Paraíso também para as famílias, que nas tardes de verão traziam cadeiras para fora e ficavam até altas horas conversando. Eu já era eremita, e não mantinha relações próximas com as crianças da escola e da vila. Por alguma razão que desconheço, nunca fui hostilizado por isso. Nunca sofri o que hoje se chama de bullying. Minha mãe deve ter sofrido muito. Afinal, mãe solteira, mulher independente, mas se sofreu nunca deixou que isso chegasse até a mim. Nas raras vezes que perguntaram pelo meu pai, inclusive na escola, respondi ser jornalista, e se reclamavam sua presença dizia estar na França. Sabia contornar constrangimentos que iriam desaguar em preconceitos e discriminações. Para isso ela me preparou, e muito bem.

Eu me sentava no primeiro degrau da escada à frente do portão da casa, observava os jogos dos meninos, mas não me oferecia para participar. Aliás, sair para a rua se dava por insistência de meu avô, pois preferia ficar com ele ouvindo programa de calouros na Rádio Piratininga, embora não gostasse do jeito sertanejo da emissora. Ficávamos ao redor do velho e pesado aparelho a válvula plantado na sala. O velho era meu parceiro de quarto, quem me levava e trazia da escola, e quem preparava nosso almoço e jantar. Era meu amigo.

Apenas um dia me aventurei em experiência coletiva de moleque de rua. Me convidaram para jogar taco. Isso consistia em fazer uma espécie de pirâmide com três pequenos galhos, armada na rua. Frente a ela ficava um dos jogadores com um taco na mão, com a finalidade de rebater a pequena bola dura que outro jogador lançaria de uma certa distância, visando derrubar a pirâmide. Uma espécie de críquete. Explicaram a dinâmica do jogo e o que eu deveria fazer com o taco. Bem, foi o que fiz. O garoto lançou a bola e, talvez por sorte de principiante, nela acertei uma tacada com força, mas sem precisão. Ela saiu pela esquerda e foi espatifar um dos vidros da janela da casa de seu Dante. A garotada correu e fiquei eu, no meio da rua, seguramente assustado, empunhando o taco, um pedaço roliço de madeira lenhosa. Só me lembro de ter ouvido a voz anasalada de dona Pierina:

- Bonito, hein? Vou contar para seu avô.

Deve ter contado. Certamente ele pagou pela troca do vidro, mas nunca me disse nada sobre isso. Para mim, entretanto, serviu para reafirmar a vocação para o isolamento. Daí em diante eu só aparecia nos encontros dos vizinhos, na rua, para atender pedido de meu avô para que tocasse flauta. Flauta transversal, aliás, que comprou de segunda mão quando notou que o neto dedicava tempo a flauta doce que fora presente da mãe.

- Pedro. Traz a flauta.

Os vizinhos reprisavam – traz a flauta, Pedro.

Era o de sempre. Eu na flauta e dona Florinda no violão iriamos acompanhar seu Felisberto cantando Rapaziada do Brás. Caprichava na voz melodiosa, no estilo de Carlos Galhardo, o grande intérprete desse clássico do saudosismo.

Lembrar,
Deixe-me lembrar,
Meus tempos de rapaz,
No Brás

Havia quem chorasse, quem cantasse, quem se abraçasse, e ao final todos aplaudiam. Era assim em todas as festas da rua. Eu gostava dessa participação única, de ajudar seu Felisberto e dona Florinda a produzir aquelas emoções singelas em pessoas tão espontâneas. Meu avô ficava envaidecido do neto. Depois surgia seu Genaro com o acordeão, e todos mergulhavam nas cantorias italianas.

Foi dali que me mudei com minha mãe para este edifício alto, não mais tomado por moradores, mas com fachada ainda preservada e recém pintado. Bonito, muito bonito. Ocupamos um dos quatro apartamentos do sétimo andar. Sala, dois pequenos dormitórios, cozinha, banheiro e minúscula área de serviço. Tudo diminuto, como na casinha do Brás, mas agora apenas para minha mãe e eu. Meu avô morreu em uma tarde de domingo. Deixou-nos o velho metalúrgico. Do Brás eu trouxe a flauta, a eletrola, livros, escrivaninha, cama de solteiro, uma coleção de moedas brasileiras e discos em 78, 45 e 33 rotações que também foram de meu avô. Ele adorava serestas, valsas, mas também chorinhos, de onde apostar na transversal do neto. Gostava também de música sertaneja, em virtude da origem rural. Coisas do tempo dele, e que lhe eram caras. Minha mãe andava às voltas com a própria geração, de onde apreciar o repertório da música popular brasileira que se apresentava antes ou surgia aos poucos a partir da década de 60 – Maísa, Dolores Duran, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Nara Leão, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Sérgio Ricardo, Gilberto Gil, Tom Zé, Edu Lobo e tantos outros -, da bossa nova, mas também da música erudita, motivo da flauta doce. Ela não gostava da Jovem Guarda. Alienação, dizia. Eu gostava um pouco de cada coisa. Gozado como memória se forma a partir de fragmentos. Eu sei disso tudo, mas não se exatamente dessa maneira.

Como parte da juventude da época, por força da profissão, e a exemplo de artistas, intelectuais e professores, minha mãe estava no coração das atenções da vigilância da ditadura que rondava, até instalar-se de forma brutal por longos vinte anos. Ela não tinha militância sob siglas partidárias, mas tinha compromisso político minimamente com a liberdade de expressão, a cada dia mais restrita, ainda que inicialmente apenas por um clima de censura no ar. Para ela, morar no centro significava estar mais perto do trabalho e das coisas que tanto valorizava: cinemas, teatros, cafés e livrarias. Também mais perto dos amigos das redações dos jornais e revistas. Lembro-me que parte da decoração do apartamento foi formada por caixotes de maçã, bem-acabados, e trazidos em uma Vemaget desde a zona cerealista, na proximidade do mercado Municipal. Neles ficavam bem acomodados os discos, livros, revistas e esculturas. Pela janela da sala eu podia ver boa parte do vale, do teatro, do viaduto, e até mesmo dos Correios. Da tabacaria próxima eu conseguia caixas de charutos vazias, que se prestavam a guardar pequenos objetos. Gostava das luzes que chegavam com o anoitecer. Quanto mais noite, mais luz. O barulho diminuía com a redução dos veículos que por ali circulavam, mas não cessava. Já havia, naquele tempo, uma campanha do silêncio promovida pela Prefeitura e pelo Instituto Brasileiro de Acústica. Afinal, já existiam leis que regulavam os ruídos urbanos. O centro, porém, já era muito mais comercial do que residencial, e por conta disso a vigilância noturna era menor, reclamavam os jornais.

Apesar de cercado por uma quantidade infinitamente maior de estímulos no novo ambiente, eu continuei sendo praticamente o mesmo. Diferença é que agora passava o dia desacompanhado, pois minha mãe saia pela manhã e voltava no final da tarde. Ela preparava a refeição do dia seguinte, quando chegava em casa, e eu esquentava quando tinha fome ou oportunidade. Eu estava ainda mais só do que antes, e gostava disso. Não me interessei pelas pessoas do prédio e nem das redondezas. Porém, explorei o entorno, e que efetivamente era novo para mim. Raras tinham sido as vezes que vim do Brás ao centro. Eu andava, via, ouvia, percebia, me orientava e aprendia. Não foi necessário muito tempo para que tivesse explorado horizontes próximos e não tão próximos. Não era como o Brás. O ambiente era repleto de contrastes, havia uma dose de risco, mas também de segurança para quem soubesse cuidar de si, e nisso eu era muito bom. Eu sempre soube ser apenas mais um na paisagem, o que não me tornava ameaça, alvo ou desafio para quem quer que fosse. Pensando melhor, neste instante, talvez nisso o segredo de escapar de bullying, prática tão comum contra solitários. Nunca falava de mim, e nunca perguntava sobre os outros. Eu sabia me blindar contra todo tipo de invasão de privacidade. Mesmo assim não facilitava, principalmente à noite. Isso restringia minha ida a eventos que adoraria visitar, como as atividades do Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, na rua 7 de Abril, pois invariavelmente às 21 horas. O mesmo acontecia com cursos de história da arte, história da ópera na Itália, literatura brasileira, literatura italiana, e muitos outros. A vida cultural da cidade era intensa, mas quase sempre à noite.

Com essa minha forma de ser e em pouco tempo havia explorado ruas, praças, parques, jardins, monumentos, comércios e edifícios públicos na Sé, Liberdade, República, Luz, Bom Retiro, Campos Elíseos, Santa Cecília, Barra Funda, Consolação e Bela Vista. Tudo isso a pé, sem auxílio nem mesmo dos bondes da CMTC que ainda circulavam pela capital, embora algumas vezes às voltas com greves promovidas pelo Sindicato dos Carris Urbanos. Fazia essas incursões pela manhã, entre o café e o almoço, e estudava ou ouvia música à tarde. À noite lia os jornais que minha mãe trazia da redação, de onde extraia informações que poderiam ser de interesse para novas entradas. Isso tudo, é claro, antes do início das aulas.

Encantei-me e tornei-me assíduo consulente da biblioteca Mário de Andrade poucos dias depois da mudança. Além do fato de ficar perto de casa, na praça Dom José Gaspar, me enchia de orgulho paulistano por tratar-se da segunda maior do país, ficando atrás apenas da biblioteca Nacional. Eu podia estar em contato com todo aquele riquíssimo acervo nas salas de consulta, ou mesmo levá-lo de empréstimo para casa.

Frequentei aulas para preparar-me ao que à época se chamava exame de admissão ao ginásio, condição para ingresso nas escolas públicas. Condição, portanto, para que eu pudesse ingressar no renomado curso ginasial do Caetano de Campos, no majestoso prédio do que foi a Escola Normal de São Paulo, em plena praça da República, e que hoje hospeda a sem vida Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Naquele tempo ingressavam no ginásio daquela escola apenas 160 alunos de cada gênero por ano. As meninas tinham aulas pela manhã, e os meninos à tarde. Como eu vinha do Brás, minha mãe conseguiu essas aulas particulares, por indicação de amigos, junto à professora Rosa, ministradas na residência dela na rua das Palmeiras, em Santa Cecília. Muitas professoras do quarto ano do curso primário faziam isso em suas casas para aumentar a renda. Sempre bom aluno, e muito disciplinado, frequentava todas as aulas e estudava em casa. Ah, novas áreas de conhecimento, e todas elas muito apaixonantes. Dona Rosa era exigente, e notadamente culta e preparada. Eu gostava de tudo, mas me encantava mais com história e geografia. Bem, tanto encantava que me tornei historiador por ofício.

Estudar no Caetano de Campos era mais do que eu poderia ter imaginado. Aliás, e para alimentar tal imaginação, eu fazia questão de por ele passar todos os dias quando ia e voltava das aulas com dona Rosa. Era em torno daquela escola que se movia tudo o mais na praça da República. Via-me vestindo o mesmo uniforme: calça azul marinho, camisa social de manga curta ou longa, não raro uma gravata preta ou azul, e malha ou blazer também azul marinho. As meninas vestiam saia azul marinho plissada na altura do joelho ou um pouco acima dele, camisa branca, meia ¾ e malha azul marinho. Os sapatos em modelos masculinos e femininos, eram chamados colegiais. Nesse trajeto, e com dinheiro sempre curto, sempre havia oportunidade para alguma guloseima na confeitaria Atlântica, que ficava na avenida São João. Sorvetes, chás, sucos, refrescos, doces e salgados finos. Existiam muitas casas, mas lembro-me dessa em particular. Paulistano que conheci nestes dias em que estou de passagem, e que tem idade próxima à minha, lembra-se do coreto da praça da República como lugar que chamou de “ponto de caça das coroas”. Não me lembro disso. Bem, ele também falou com detalhes da movimentada prostituição nas calçadas e prédios das ruas Vitória, Aurora e dos Gusmões. Quando muito lembrei-me da expressão “boca do lixo” para designar aquela zona. Puxa: como eu era comportado... De fato, ruas no entorno das estações ferroviárias da Luz e Júlio Prestes, e na época do recém construído terminal rodoviário da Luz, embora ficasse na praça Júlio Prestes não gozavam de boa fama. Locais de passagem, quase exclusivamente de gente pobre, de longe, de onde tudo se tornar provisório, sem raiz, sem face e sem nome. Hoje vejo isso com mais clareza, mas não à época. Hotéis de quinta categoria, pensões de quinta, bares de quinta, restaurantes de quinta, lojas de quinta, gatunos de quinta, drogas de quinta e prostitutas de quinta, ao alcance do bolso de quinta dos que iam e vinham, dos que por ali passavam. São Paulo sempre foi assim: uma cidade à altura de todos os bolsos.

Foi também naquele período que uma vez por semana passei a frequentar aulas particulares – teóricas e práticas – de flauta, com maestro Alfredo, músico do Municipal, cujo anúncio estava fixado na Casa Chopin, loja que comercializava instrumentos musicais, rádios, eletrolas, televisores, discos, partituras, e que ficava na rua José Bonifácio. Minha mãe não se conformava com meu autodidatismo, com o que chamava de analfabetismo musical. O desejo é que eu executasse peças de Mozart e Vivaldi, nomes muito lembrados em concertos para flautas, mas sobre partituras, e não de ouvido como havia aprendido intuitivamente. As aulas aconteciam em sala comercial da rua 24 de Maio, perpendicular ao fundo do teatro Municipal. Teóricas em grupo, mas práticas individuais. Minha vida mudava substancialmente, ao menos no plano intelectual e artístico. Havia um poderoso universo cultural a minha volta. Ora, pelo que noto por aqui há até hoje. Tentaram me convencer na atual passagem, que migrou para a avenida Paulista, mas o que encontrei por lá foi uma cultura de consumo, produzida a partir de esforços de marketing, a exemplo de roupas ou cortes de cabelos. Multiplicam-se os points. Com exceção de algumas mostras internacionais no MASP – Museu da Arte de São Paulo – e nada mais me interessou naquela região. Não estava finalizado quando eu aqui ainda morava. No meu tempo havia a feira de antiguidades na alameda Tietê, que embora adorável, estava sempre fora do alcance de meus pobres bolsos. Por outro lado, poucos se interessam hoje pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, que pouco ou nada perde para similares nos demais países, e pelo simples fato de estar na Luz, dentro do jardim da Luz, um local tido como decadente, pois frequentado por moradores de rua e prostitutas. Se interessam pelo status do local mais do que pela qualidade do acervo.

Interessante. Esta gente acredita que há cultura onde o caderno dito cultural de algum jornal diz haver, ou onde alguma placa indica. Pode-se dizer o mesmo de arte. Cultura e arte se definem por espaços confinados, como leões e elefantes no zoológico. Era assim? Não me lembro. Evidente que existiam espaços para espetáculos, mas falava-se de literatura, poesia, música, teatro e cinema em meios minimamente escolarizados. Muitas vezes era o que havia para falar, e não necessariamente em ambientes de notória erudição. Havia valor em ser culto, mesmo em alguns ambientes populares.

Bem, mas foi caminhando pela cidade em companhia de pequeno bloco de notas e lápis que conheci boa parte da história de São Paulo e mesmo do país. Ela estava ali, a céu aberto, e que haviam deixado exposta ao olhar do passageiro indiferente, mas também ao do movido pela curiosidade, ao culto. Talvez dai a paixão por obras, pois nelas a materialidade de momentos da vida de pessoas e da sociedade. Eu andava, parava diante do que despertava minha atenção, anotava referências, e depois consultava enciclopédias na biblioteca municipal visando conhecer a trajetória da obra descoberta. Minha mãe e meu avô nunca tiveram condições de comprar uma enciclopédia de qualidade, mas agora eu tinha acesso a várias, às mais renomadas, e sem gastar um centavo. Foi assim que conheci a catedral da Sé, o pátio do Colégio, o mosteiro de São Bento, a estação da Luz e a Júlio Prestes, e delas as ferrovias paulistas. Teatro Municipal, praça da República, o Caetano de Campos, monumento da Independência, galeria Prestes Maia, mosteiro da Luz, mercado Municipal, a escultura a menina e o bezerro no largo do Arouche, antigo largo do Ouvidor, etc. Foi assim.

Minha mãe comprou um rádio de cabeceira RCA-Victor na Casa Sotero Limitada, que ficava na rua São Bento. Nossa! Infinitamente menor do que aquele de meu avô, e que não veio com a mudança justamente pelo espaço que ocupava. Eu adorava a programação da rádio Eldorado, mas principalmente a suave locução praticamente padronizada. Apenas por conta de um prêmio Roquette Pinto os paulistanos ficaram sabendo que a voz tão identitária da rádio pertencia a um jovem chamado Mário Lima, que apresentava o noticiário das 13 horas, e em seguida o programa Tarde Musical, que ele mesmo produzia. Mário era casado com a cantora Alaíde Costa. Aliás, a programação musical da emissora ganhou mais do que um prêmio Roquette Pinto. A época, e no dizer da emissora, não se preocupava em atender critérios de popularidade, mas de qualidade. Música erudita, jazz, popular brasileira e norte americana. Atendia, de acordo com a emissora, aos ouvintes mais exigentes. Era capaz de transmitir o concerto do meio dia às 12, recital de piano ao meio dia, música de concerto às 20h, noticiário oferecido pelo jornal O Estado de São Paulo às 20h55, desfile de cançonetas napolitanas ou músicas vocais às 21h30 e jornal de trinta minutos às 22. Lembro-me ainda hoje do prefixo:

ZYK686.
Rádio Eldorado Limitada. 
São Paulo – Capital. 
AM 700 KHZ.

Ela comprou também, na rua 24 de Maio, uma máquina de escrever Olivetti. Lembrei-me: Lexicon 80. Comprou para uso dela, mas com ajuda de método adquirido em banca de jornal e muito treino aprendi a datilografar com todos os dedos. Foi uma excelente aquisição, pois animou-me a escrever, atividade que prazerosamente exerço até hoje.

Meu avô, minha mãe e eu não gostávamos de televisão. Bem, não éramos propriamente excêntricos, mas seguramente incomuns. Música, notícias e entrevistas estavam à farta nas rádios, em especial na Eldorado, e isso nos bastava. Fato é que entre programações de rádio, andanças, pesquisas na biblioteca, aulas de flauta e preparativos para exame de admissão no ginásio e tudo passou rápido em um ano muito produtivo. Nada perto do que se pode fazer em São Paulo, pois uma cidade impossível de ser plenamente conhecida, abraçada. Em São Paulo tudo muda de um quarteirão para outro. Dobra-se a esquina e eis outra São Paulo. De qualquer forma, foi um ano produtivo, principalmente porque aprovado no exame de admissão ao Caetano de Campos. Eu me tornava caetanista, um dos 160 meninos que iria, com garbo, vestir uniforme ginasial e frequentar aulas no período da tarde por alguns anos. Gozado que em nenhum momento tive dúvida de que seria aprovado. O que se fez necessário foi transferir as aulas de flauta para o período da manhã. Bem, haveria uma preocupação do tempo pela distribuição da atividade. Me senti realizado.

Amigos de minha mãe diziam que eu era precoce. Será? Eu mal convivia com outros da mesma idade para saber se faziam ou gostavam das mesmas coisas. Talvez fosse o que hoje se chama de nerd. Gostava de estudar, e nisso me parece que era diferente da maior parte dos demais, dedicados às brincadeiras sempre que podiam. Nunca gostei de esportes, mas cumpria atividades físicas que me eram exigidas. Nunca me convenci do apelo mens sana in corpore sano. Também nunca me convenci da existência de Deus. Católico por força de batismo, nem quando criança frequentava igreja. Por sorte meu avô e minha mãe também não eram praticantes. Sendo assim, nem religião, nem time de futebol ou qualquer outro símbolo de pertinência coletiva. Era atraído pela história da formação do Estado de São Paulo e depois de mudar-me para o centro pela história da própria cidade. Nunca havia me interessado por alguma menina em especial. Algumas chamavam atenção por beleza, outras por atitudes, mas estavam sempre em bandos, pequenos ou grandes, e eu não conseguia imaginá-las sós. Talvez por isso o desinteresse, pois nunca gostei de bandos.  Era assim no Brás. Não sentia que algo havia mudado no centro, mas foi até ter deitado os olhos sobre Astrid.

Embora estudasse no período da tarde, tinha curiosidade sobre as alunas que estudavam pela manhã. Foi por esse motivo que um dia, depois da aula de flauta, resolvi passar pela entrada da escola antes de voltar para casa. Da rua 24 de maio fui para a praça da República e o horário coincidia com a saída das alunas. Dava para saber quem eram as calouras pelo uniforme novinho em folha. Moda ou não, não sabia qual a graça daqueles cabelos armados como se fossem ninhos de pássaros, e ainda quimicamente endurecidos. Algumas vezes minha mãe usava isso, e não me conformava em vê-la arranjar os cabelos em torno de palha de aço, sem contar com o insuportável cheiro do laquê. Bem, os rapazes costumavam usar fixador Glostora e brilhantina Williams para sustentar os topetes. Consegui escapar disso, pois preferia os cabelos ao natural. Para as meninas do ginásio, entretanto, esses penteados eram motivo de ostentação e desfile. Quando começaram a se dispersar em várias direções atravessei a avenida Ipiranga e avancei na rua Barão de Itapetininga a caminho de casa. Afinal, precisava almoçar para fazer o mesmo caminho de volta para as aulas logo mais à tarde.

À frente grupos de ginasiais caminhavam pelas calçadas, com seus livros e cadernos junto ao peito. Muitas caminhavam de braços dados. Eram falantes, gesticulavam e pareciam alegres. Em meio a essas cenas, e na minha frente, caminhava uma caetanista, mas só. Com passos lentos, mas decididos, ia na mesma direção que eu. Eu a via por trás e reduzi o ritmo de meu próprio caminhar para melhor observá-la. Magra, vestindo saia de uniforme um pouco abaixo dos joelhos, tinha uma postura altiva. Um pouco mais alta do que eu, talvez, era loira, muito loira, com cabelos compridos e lisos, muito lisos. Nada de laquê. Talvez alemã, pois pouco ou nada tinha das características tipológicas das colegas.

Apressei um pouco o passo e aumentei discretamente a distância para poder observá-la de lado com o canto dos olhos. Ah, não era latina. Olhos azuis se destacavam em um rosto arredondado de pele clara, sob uma franja longa que escorria por cima de uma bandana preta, na forma de tira, talvez de lã. Muito diferente de suas colegas, de todas elas. Não olhava para os lados. Apenas para frente, mas sem abaixar a cabeça. De certa forma ela tinha coisas a ver comigo, a começar por estar só. Atravessou o viaduto do Chá, ao final entrou a esquerda, e logo em seguida em entrou em um prédio do lado direito. Incrível. Morava perto, muito perto de mim. Quando fui para as aulas, logo depois do almoço, passei e parei em frente ao prédio onde ela havia entrado. Sem dúvida um prédio residencial, mas ela não estava à vista.

Desse dia em diante mudei o eixo de meus interesses e o roteiro de meu caminhar pela cidade. Fosse para onde fosse, e fazia do passar frente ao prédio da lourinha uma obrigação, como se não houvesse alternativa. Por lá passava ainda que meu destino estivesse em direção oposta. Fugindo a todos meus limites, ocorreu-me até perguntar ao porteiro quem era a alemãzinha. Não cheguei a tanto, mas me ocorreu essa possibilidade. Tornou-se sagrado um olhar atento à portaria daquele edifício quando ia ao Caetano de Campos. Rondei o prédio até mesmo naquele sábado e domingo. Nunca tinha me deixado levar por impulso como esse.

Fiquei ansioso até a próxima quinta-feira, dia de aula de flauta pela manhã. Aliás, e pela primeira vez, estive participando da aula com olhar nos ponteiros do relógio de parede que ficava sobre a porta de entrada da sala. Ao final, guardei o instrumento no case e sai apressado para a praça da República. Cheguei a tempo de ver as caetanista deixarem aos poucos o majestoso prédio, e em pequenos grupos. Em intervalo entre a saída de um desses grupos, e outros, e eis que surge a lourinha na soleira do portal do prédio. Parou, como que se apresentando a praça, à luz, ao sol daquela manhã quente e luminosa, e apenas depois de instantes começou a descer lentamente pela escadaria. Impossível não admirar os movimentos harmônicos e elegantes da magrinha loura. Não apenas uma menina bonita, mas uma cena bonita. Esperei que descesse o último degrau e se pusesse em movimento para segui-la a distância. O uniforme novinho em folha, como o meu, sugeria que fosse aluna do primeiro ano do ginásio.

Me sentia ridículo. Onde se viu seguir uma desconhecida? Poderia andar a seu lado e simplesmente dizer:

- Olá. Sou Pedro e estou no primeiro ginasial da tarde. Tudo bem?

Ela poderia fazer de conta que nada ouvira e continuar andando. Poderia parar e me olhar com reprovação até que eu sumisse. Poderia parar e fazer um verdadeiro escândalo. Mas também poderia dizer:

- Tudo bem. Sou fulana e estou no primeiro ginasial da manhã.

O problema é que, não fosse essa última a reação, e tudo estaria irremediavelmente perdido. É claro que essa racionalidade não me passava pela cabeça naquele instante. Havia medo, muito medo. Me sentia ridículo por segui-la e por não ter a menor ideia de como abordar. Torcia para não ser notado na perseguição. Como ela tinha um andar firme, mas lento, reduzi o ritmo de meu habitualmente apressado caminhar.

Eu seguia. Apenas seguia. Ah, não há como esquecer, naquele dia, seus cabelos finos, amarelos e lisos balançando ao sabor do vento quando passou pelo vão livre do viaduto do Chá. No final da travessia entrou na rua a esquerda e logo a seguir no mesmo prédio da vez anterior. Nem mesmo no hall de entrada olhou para os lados. Caminhou até o final do corredor e parou frente ao poço do elevador. Abriu a porta e desapareceu. Eu poderia perguntar por ela para o porteiro, mas dele poderia ouvir:

- Por que quer saber?

Não, pois além da mais completa ausência de coragem, a intuição me dizia que era melhor esperar por melhor oportunidade. Ou seria isso mera racionalização para não reconhecer a evidente covardia? Mais provável. Fato é, porém, que repeti esse expediente por mais duas semanas: sair da aula semanal de flauta e correr para o Caetano de Campos para seguir a lourinha. Também nesse período fazer da passagem pela portaria do prédio onde ela morava uma espécie de trilha, ainda que nunca tenha tido a sorte de vê-la, nem mesmo nas redondezas.

Inconformado com essa situação, e decido a tomar alguma atitude, resolvi buscá-la, digamos assim, mais do que uma vez por semana. Passei a comparecer duas, três, quatro e finalmente todos os dias úteis da semana. O resultado, porém, era exatamente o mesmo: seguir a certa distância e no anonimato. Ridículo, ridículo! A única coisa que mudava era atração pela lourinha. Pois é: ficava cada vez maior. Eu sonhava estar passeando, indo ao cinema e frequentando sorveterias com ela. É difícil lembrar sem profundo sentimento de vergonha, mas essa perseguição durou exatos quatro meses, quase meio semestre letivo. O que fiz para mudar essa situação? Nada. Talvez o acaso tenha ficado desacorçoado com tamanha inércia e resolvido chamar para ele alguma iniciativa. Foi em perseguição de rotina durante uma quinta-feira quando, pela primeira vez, ela saiu da costumeira passagem pela rua Barão de Itapetininga e entrou na rua Marconi. Estranhei, mas segui, e eis uma segunda mudança: ela parou diante da livraria Kosmos e entrou. Sem saber o que fazer fiquei parado na calçada, voltado para a rua, praticamente na frente da livraria, com o constrangedor incômodo de quem precisa disfarçar.

Um barulho às minhas costas fez com que eu me voltasse, e eis que vejo lourinha, na calçada, entre vários livros caídos a seus pés. Adiantei-me a recolhê-los e estive tão perto da lourinha que pude sentir seu delicado perfume. Disse-me “obrigada” com voz meiga e sorriso encantador, e estendeu as mãos para receber os livros. Não sei de onde me ocorreu responder:

- Não se incomode. Eu levo.

Fez-se silêncio. Percebi que havia falado demais, e com expressão de dúvida perguntou-me:

- Leva para onde?

Eu havia criado uma armadilha para mim mesmo, e precisava pensar rápido em alguma coisa que fosse plausível, e que não levantasse suspeita sobre o que vinha fazendo por meses, isto é, segui-la clandestinamente.

- Já vi você perto de onde moro. Sei até qual o seu prédio.

Ela sorriu e parece ter acreditado em meu argumento. Ufa! Nunca pensei tão rapidamente. Também nunca fui tão rápido em uma resposta, ainda que o que tivesse dito fosse absolutamente verdadeiro. Com os livros sobre o braço, caminhamos juntos de volta a rua Barão de Itapetininga.

- Sou Pedro.

- Sou Astrid.

Astrid. Até o nome era diferente. Ainda que por acidente, finalmente aproximei-me da lourinha, Astrid, e ao lado dela caminhava. Caminhamos em silêncio, e nada dissemos um ao outro até a porta do prédio onde morava.  Devolvi os livros, ela agradeceu, entrou no hall da portaria, caminhou pelo corredor, abriu a porta do elevador e foi-se. Não olhou para trás, e esperei que desaparecesse de minha vista antes de continuar a caminhada para casa. Eu estava nas nuvens, pois agora a lourinha tinha cheiro, voz e nome. Tudo nela era agradável, e eu finalmente podia aproximar-me sem parecer investida impertinente de um estranho. Agora ela sabia de minha existência, e até mesmo do meu nome. Astrid sabia de Pedro. Acho que pela primeira vez gostei de ser conhecido.

Ah, aquele episódio deve ter deixado mais marcas do que eu imaginei. Quando minha mãe chegou no final da tarde me perguntou o que havia acontecido.

- Nada, respondi.

- Hum... Você está diferente.

- Como diferente?

- Não sei. Mais alegre, eu acho.

Bem, estava mesmo. Radiante seria o termo mais adequado. Certamente não foi um dia como os demais. Tive dificuldade de concentrar-me nas aulas da tarde, pois o tempo todo me lembrava dos livros caídos ao chão, de também me agachar para recolhê-los, da sensação indescritível de ter Astrid tão perto. Puxa: era mesmo bonita e graciosa. Voltei para casa exultante e me detive diante do prédio onde ela morava antes de continuar para o meu. E pensar que me ocorreu a besteira de perguntar pelo nome dela ao porteiro. Ainda bem que não fiz isso. De qualquer forma, no dia seguinte eu iria mais uma vez busca-la no Caetano, mas não sabia ainda como explicar a nova coincidência. A aula de flauta? Era na quinta e, além disso, voltar para casa pela praça da República era um trajeto maior. Poderia dizer que tinha ido à biblioteca, mas a passagem pela praça também não se explicava. Por outro lado, e pensando melhor, por que precisaria justificar alguma coisa. Passaria por lá exatamente na hora que ela descesse a escada e se pusesse a caminho da Barão de Itapetininga. Desta vez caminharia ao lado.

De fato, mal pisou na praça e eu já estava encostando:

- Oi, Astrid! A caminho de casa?

- Você aqui? – perguntou-me com surpresa estampada inclusive na face.

- Pois é... Estava por perto e passei por aqui para ver a saída da escola.

- Você estuda no Caetano?

- Sim.

- Mas as aulas para meninos não são à tarde?

- São, mas eu estava tendo aulas de flauta.

- E onde está seu instrumento, pois ontem você estava com um em estojo?

Nunca me ocorreu que fosse tão atenta e observadora, e sai com o que me veio de imediato à mente:

- Ah, é que a aula de hoje foi teórica.

Eu estava surpreso com esse talento dissimulatório que desconhecia. Por sorte não perguntou mais nada, e seguimos o caminho praticamente mudos. No trajeto eu disse que estudava no primeiro ano ginasial, ela disse que também, e não surgiu outra conversa até a soleira do prédio em que morava, onde disse-me “tchau” e seguiu pelo corredor sem olhar para trás ou para os lados.

Fui para casa arrependido por não ter tentado combinar com ela um encontro no dia seguinte, sábado, ainda que para ficarmos sentados na mureta em frente ao prédio em que residia. Por outro lado, poderia ter posto em risco o pouco que havia conquistado. Aos poucos, pensei, mas também assim estava me arriscando diante da mentira. Até quando iria insistir na coincidência de passar pelo Caetano de Campos naquele horário? Talvez fosse conveniente construir essa coincidência no máximo duas vezes por semana, mas isso contrariava meu desejo de com ela estar, além do risco de deixar espaço para algum concorrente mais atirado do que eu, coisa que seria fácil para a maioria dos garotos. A melhor solução seria a verdade, mas como Astrid reagiria a ela? Bem, eu teria tempo para pensar, pois naquele momento tinha que esquentar a refeição, almoçar, lavar a louça e ir para as aulas. Como de costume passei em frente ao prédio, mas nem sinal da lourinha.

Me lembro daquele fim de semana, pois estava ansioso para saber como iria explicar para Astrid aparecer na porta da escola em plena segunda-feira, quando não teria nova desculpa para lá estar e novamente naquele horário. Bom seria a verdade, se tivesse coragem.  Na manhã daquele sábado minha mãe chegou da rua com um vaso retangular, raso, estreito e comprido, um pequeno saco de terra preta, mudas de algumas plantas, e montamos a jardineira que ficou ao pé da janela da sala, onde pudesse receber sol. Embora não fosse árido, de fato faltava um pouco de vida no ambiente. Ficou bonito. Havia um pequeno pé de pimentas vermelhas e arredondadas, com não mais do que trinta centímetros de altura. Não me recordo das demais. Folhagens, talvez. O domingo foi nervoso pela notícia de um vizinho de andar encontrado morto pelo sobrinho que foi visitá-lo. Pouca gente o conhecia, pois morava só e vivia recluso no apartamento, o que aumentou ainda mais a boataria. De assassinato a suicídio os comentários corriam pelos corredores dos sempre discretos paulistanos, principalmente por conta da movimentada remoção do corpo pelas escadarias, pois não coube no elevador. Falou-se de tudo, menos da possibilidade de o ancião ter morrido de velho. O sobrinho encontrou o falecido no domingo, mas parece que havia morrido dias antes. Lembro-me da alarmada vizinha em nossa porta comentando o episódio com minha mãe.

- Pobre homem. Largado pela família. Ainda bem que o Senhor o recolheu.

Minha mãe ouvia por educação, pois deu azar de sair ao corredor para saber o motivo da algazarra. Depois do acontecimento, cada qual voltou ao refúgio de seu apartamento, e a vida voltou ao normal, com os apenas bons dias e boas tardes quando dos encontros casuais dos residentes. Afinal, não havia no centro da metrópole os ritos de vizinhança com o qual convivíamos no periférico Brás. À tarde amigos de minha mãe vieram nos visitar, como faziam com certa frequência. Traziam pães italianos, cascudos e escuros, salames, queijos curados e vinho, que haviam comprado nas casas da Bela Vista, bairro onde dois deles residiam. Um deles trazia violão, eu pegava a flauta, e assim entrávamos pela noite comendo, bebendo, tocando e cantando. Como a vida me era boa. Lembro-me que cantamos A Banda, de Chico Buarque, e que andava na boca de toda a gente por conta do sucesso dos festivais da música popular brasileira. 

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou. 

Hoje faz mais sentido. Melhor: hoje faz sentido.

Segunda-feira chegou e lá estava eu no horário de saída da escola à espera de Astrid. Como antes ficava um pouco a distância esperando que ela surgisse na escadaria, até que descesse para a calçada, para ter certeza de que não estaria acompanhada. Não estava, como das vezes anterior estava só, enquanto as demais meninas saíssem aos pares, trios ou bandos. Me aproximei sem ser visto:

- Oi!

- Oi, Pedro, respondeu surpresa. O que faz por aqui?

- Vim lhe buscar, disse-lhe com coragem, embora temeroso pela reação.

- Nossa! Exclamou com sorriso discreto.

Ah, que alívio! Ela havia gostado, e eu estava envaidecido pela própria coragem. Começamos a andar pelo caminho de sempre. Lentamente, como de costume, ao menos para o costume dela. No trajeto falei sobre o episódio do vizinho encontrado morto, e do encontro, em casa, com os amigos de minha mãe. Ela ouvia. Como eu continuava tagarelando quando da chegada ao prédio onde ela morava, apontou-me para uma mureta na entrada do edifício, sugerindo que devêssemos sentar. Apenas quando nos sentamos, e ela se manteve quieta e delicada como sempre, notei que estava falando demais, mas a ansiedade me empurrava para movimentos, como se o silêncio representasse algum prejuízo, alguma perda na iniciada relação. Esse não era eu.

- E você? O que fez neste final de semana?

- Nada de diferente dos demais. Fomos com meu tio para uma chácara que ele tem na Serra da Mantiqueira.

Voltamos à mudez. Eu poderia ter feito várias perguntas, mas a resposta sintética da lourinha e um alarme interior me disseram para fechar a boca. Eu não queria saber. Em verdade nem mesmo queria ter falado sobre meu final de semana. Acho que nunca falei tanto. Queria apenas estar em companhia de Astrid, mas não sabia como as pessoas se comportam nessa circunstância. De boca fechada fiquei como ela olhando para os próprios pés, para a calçada e para o movimento da rua. Me sentia bem. Ficamos assim por pelo menos quinze minutos, quando ela disse que precisava entrar, pois a mãe a esperava com o almoço a mesa.

- Posso buscá-la amanhã?

- Se você quiser...

Ah, a verdade estava me libertando. Poderia buscá-la sem inventar motivos. Aliás, nem mesmo precisava explicar porque desejava buscá-la. Como me sentia bem com isso, como me sentia bem com sua presença. Como ela eu também não gostava de falar, não gostava de bandos, não gostava de perguntas. Éramos parecidos justamente por sermos diferentes da maioria das pessoas de nossa idade. Não precisávamos ser como eles para continuar sendo nós mesmos, ainda que agora como um par. Segui para meu apartamento esquentar minha refeição, trocar-me e seguir para as aulas. Estava confiante de ter incorporado a alemãzinha em minha vida. Essa condição deve ter refletido em minhas rotinas, pois minha mãe continuava indagando:

- O que está acontecendo com você, hein? Alguma novidade?

Eu sempre respondia que não, embora soubesse o que ela queria ouvir. Entendia que era assunto meu, da mesma forma que a vida afetiva dela assunto que não me dizia respeito. Ela só satisfez a curiosidade meses depois, quando Astrid apareceu em casa após dois dias seguidos sem buscá-la na escola. Eu estava acamado por conta de uma gripe tão forte que minha mãe não foi trabalhar para cuidar de mim. No início da tarde ouvi a campainha tocar, minha mãe abrir a porta, e a voz da alemãzinha:

- Bom tarde. Sou Astrid, e como não vejo Pedro há dois dias, imaginei que pudesse estar doente. 

- Ah, Astrid! Entre, entre, disse minha mãe com efusiva cordialidade. Sim, ele está gripado e me pareceu melhor permanecer em casa, mas ficará muito feliz com sua visita. Espere só um pouquinho.

Entrou em meu quarto e com sorriso malicioso disse:

- Você tem visita. Astrid. Prepare-se para recebê-la.

Ajeitou uma cadeira perto de minha cama e voltou para a sala.

- Venha querida.

Tão logo a alemãzinha entrou no quarto ela apontou a cadeira.

- Fique à vontade. Aliás, fiquem à vontade. Vou sair para deixá-los em paz.

Saiu, com o mesmo ar malicioso, e fechou a porta atrás de si.

Astrid sentou-se, e como de costume fiquemos quietos. Ela trazia nas mãos um pequeno embrulho, que me deu depois de certo tempo.

- O que é isso? – perguntei enquanto abria o pacote.

- Um livro.

- É seu?

- Não. Um presente. Imaginei que estivesse de cama, e que talvez gostasse de um livro para ajudar a passar o tempo.

O Estrangeiro, de Albert Camus. Eu estava habituado e gostava de literatura brasileira, mas pouco conhecia dos estrangeiros, e nunca ouvira falar de Camus. Agradeci e disse desconhecer Camus. Disse-me que tivera contato com o autor recém falecido – em 1960 -e com a obra por indicação do pai. Perguntou-me se queria que lesse para mim. Fiquei surpreso com a inusitada oferta, pois nem minha mãe e avô haviam feito isso, mas aceitei com entusiasmo. Ela lia com voz doce, melodiosa, mas com talento interpretativo. Não sei se gostava mais da leitura, da obra ou da presença de Astrid, mas me sentia muito bem. Ao final, concluímos que o personagem era estrangeiro não em relação à nacionalidade, mas a sua própria inserção nas coisas, no mundo. Era estrangeiro em relação a si mesmo. Não falamos de nós, é verdade, mas deve ter nos ocorrido que de certo modo éramos também estrangeiros, pois não nos comportávamos como a maioria das pessoas. Vivíamos uma espécie de autismo a dois. Não falamos sobre isso, mas creio que sentimos uma identidade compartilhada com o personagem de Camus. Naquela ocasião mostrei para Astrid minha coleção de moedas brasileiras que havia herdado de meu avô. Ela adorou a de mil réis, de prata, de 1889. De fato, a mais preciosa de minha coleção. Já perto do horário do jantar e ela disse que precisava ir para casa. Chamei minha mãe para que Astrid pudesse dela se despedir. Ah, veio rapidamente, e explicando que não preparou um lanche para nos deixar em paz. Acompanhou a alemãzinha até a porta de saída do apartamento.

- Volte sempre, querida. Foi um prazer conhecê-la.

Astrid agradeceu e foi-se. Minha mãe, é claro, correu para o meu quarto.

- Linda a Astrid, não é? – afirmou com o mesmo olhar.

Para meu azar viu o livro sobre a cama e quis saber dele.

- Ganhei da Astrid.

- Um livro de presente? Albert Camus? Além de tudo Astrid é intelectual? Ah, agora entendo as mudanças das últimas semanas. Bonita, elegante, culta... Interessante! Gostei.

Fiz de conta que não dei importância aos comentários para que a descoberta não rendesse mais do que já estava rendendo, mas parece que não deu certo. Os amigos que frequentavam nosso apartamento passaram a perguntar por Camus e Astrid. Havia simpatia em meio às malícias, mas confesso que eram desconfortáveis. Astrid era assunto meu. Mãe, porém, estava envaidecida com o que deveria entender como namoro do filho, do único filho. Deve ter noticiado para toda a redação. Por sorte não publicou no jornal.

Mal recuperado e fui buscar Astrid na escola.

- Bonita sua mãe.

- É, ela também achou você bonita. Aliás, bonita, elegante e culta.

- Culta?

- Sim. Ela viu o livro e eu disse que ganhei de você.

- Ah!

Bem, esse foi o único diálogo do dia. No final da caminhada nos sentamos na mureta de entrada do prédio de Astrid, olhamos para o chão, e repetimos tudo novamente no dia seguinte. Era assim de segunda a sexta, com sol ou chuva, frio ou calor.

Também eu estive na casa de Astrid após dois dias de sua falta às aulas. Doença. O que mais poderia ser? Afinal, faltasse por motivo previsível, e eu teria sido avisado. Fui pela manhã, pois não poderia faltar às aulas da tarde. Como não tinha com o que presentear a alemãzinha, resolvi me fazer acompanhar da flauta. Afinal, ele sabia que eu tocava o instrumento, mas nunca tinha visto e ouvido.

Apresentei-me ao porteiro como colega de escola da Astrid e perguntei pelo andar e apartamento. Quinto andar. Apartamento cinquenta e um. Apreensivo apertei a campainha e esperei ser atendido. E fui, por uma jovem senhora alta, magra e loira como Astrid, que abriu a porta e sorriu-me a espera que eu dissesse alguma coisa.

- Bom dia. Meu nome é Pedro, colega da Astrid, e vim saber se está tudo bem com ela.

- Pedro, repetiu a senhora, com um sotaque carregado e que me parecia alemão.

Da porta e em voz alta falou para o interior do apartamento, uma frase da qual só conseguir entender Pedro, e ainda assim sofrivelmente. Ouvi Astrid responder naquele mesmo e estranho idioma.

- Venha, disse-me a senhora que pôs a mão sobre meu ombro e guiou-me ao dormitório da lourinha, onde colocou uma cadeira perto da cama, e continuou com o mesmo sorriso amigável enquanto saia e fechava a porta. Sentei-me com o estojo da flauta nas mãos e fiquei olhando para a aparência abatida de Astrid.

- Gripe?

- Sim. Desta vez sou eu.

Sorrimos e continuamos quietos. A lourinha olhava para as próprias mãos juntas sobre a coberta, e eu para o estojo da flauta. 

- O que tem nessa caixa? - perguntou.

- Minha flauta. Trouxe para você ver.

Como ela mostrou-se interessada abri o estojo e montei o instrumento.

- Bonita. Você vai tocar para mim?

Com certa timidez dei início a uma partita para flauta solo, de Bach. Foi o que me ocorreu. Astrid alegrou-se e ergueu o corpo na cabeceira da cama. Não executei muitas notas antes que a porta se abrisse e por ela entrasse a sorridente mãe de Astrid, agora acompanhada de um homem da mesma idade, também loiro, alto, magro, de barba ruiva e igualmente simpático. Surpreso e desconcertado parei de tocar. Na língua estranha o homem falou com Astrid, que traduziu:

- Meu pai quer saber por que parou, e se não conhece músicas tipicamente brasileiras.

Enquanto eu pensava o que tocar, pai e mãe sentaram-se a margem da cama da loirinha e esperavam atenciosamente pela minha performance. Bem, eu conhecia músicas tipicamente brasileiras, e me ocorreu uma que sempre fazia sucesso: André de sapato novo.  Tomei fôlego e dei de mim o melhor. Afinal, já havia tocado inúmeras vezes aquela música.

Não conseguiam esconder o encantamento e com o corpo acompanhavam o ritmo compassado do chorinho. Astrid estava radiante. Afinal, não conhecia meu talento musical e, decerto, estava envaidecida perante os pais. Aplaudiram ao final e o pai de Astrid fez a ela novas perguntas naquele idioma que ainda me parecia próximo do alemão.

- Meu pai quer saber o nome e gênero da música.

- É um choro e chama-se André de sapato novo.

- Agora ele quer saber por que André de sapato novo.

- Dizem que o autor, chamado André, deu esse nome à música depois de ir a um baile com sapato novo, apertado, desconfortável.

Riram da história. Agradeceram a audição e saíram do quarto. Simpáticos, amáveis e o tempo todo sorridentes. Muito afetivos.

- Obrigada, disse-me Astrid.

- Pelo que? Gostei muito de tocar para você e seus pais. Espero que tenham mesmo gostado. Aliás, vocês são alemães? Não entendo palavra do que dizem.

- Somos noruegueses, Pedro, disse-me com a paciência dos compreensivos.

Escandinava, nórdica, viking... Como eu poderia saber. Perto do horário do almoço expliquei que precisava me preparar para as aulas da tarde. Astrid chamou a mãe para dela despedir-me. Com um português sofrível a jovem senhora agradeceu a visita e convidou-me para voltar outras vezes. O pai não apareceu na minha partida, como também não tinha aparecido na chegada.

Tempo depois estive novamente na casa de Astrid. O motivo, desta vez, não é lembrança muito agradável.

De tanto comparecer na porta da escola, acabei por me fazer notar por alunas. Pois não é que uma delas, uma moreninha mais volumosa, digamos assim, resolveu puxar conversa comigo todos os dias, antes que Astrid aparecesse no portal do edifício? Me fazia perguntas e falava sobre ela, ainda que eu nada perguntasse. Reconheço que era atraente, e foi por conta dessa qualidade que devo ter me aberto ao jogo da sedução. A vaidade, a vaidade, mas a carreira de pavão durou pouco, pois à distância Astrid saiu a tempo de ver parte da cena. Como consequência deve ter saído às pressas e me deixado a ver navios. Esperei até a saída da última aluna, andei apressado pelo nosso caminho de sempre, e nada de Astrid. Fiz besteira e fui tomado de súbita consciência disso. Como consertar? Como explicar? Como me desculpar?

No dia seguinte e a mesma coisa: nada de Astrid no horário e local de saída. Esperei, me apressei, e nada de Astrid. Me ocorreu que a besteira foi maior do que eu havia imaginado. Eu feri Astrid, e com alguém que não tinha para mim nenhuma importância. Por mero exercício de vaidade masculina, e que nem mesmo fazia parte de meu repertório de valores. Por conta disso feri alguém que me era importante, muito importante. A sensação de idiotice era maior do que a da possibilidade de perda de Astrid. A reação da viking mostrou algo que eu não havia percebido: eu era para ela mais importante do que pensava. Percebi, também, que ela era mais importante para mim do que eu imaginava.

Voltei para casa arrasado, e não encontrei outra solução que não fosse a ir ao apartamento dela e de alguma forma demonstrar meu mais profundo arrependimento. Foi o que fiz. Pela primeira vez faltei às aulas da tarde e fui bater na porta de Astrid. A mãe dela abriu a porta.

- Boa tarde. Astrid está?

- Sim. Entre.

Minutos depois apareceu a lourinha. Nos sentamos na sala, eu em um sofá e ela em uma poltrona. Não falamos nada. Ficamos olhando para os próprios pés. Depois de certo tempo dei-lhe um pequeno envelope de papel celofane colorido. Ela pegou sem demonstrar interesse e perguntou:

- O que é isso?

- Um presente.

Abriu e encontrou a moeda de mil réis que havia apreciado em minha coleção.

- Não posso aceitar. É a moeda mais valiosa de sua coleção.

Fiquei desconcertado e só me ocorreu dizer que não era a mesma. Que essa eu havia comprado para ela. Ela ficou olhando para a moeda de prata polida, e só depois de bom tempo, sem levantar a cabeça, agradeceu e guardou. Ficamos mais um tempo sem nada dizer, quando me pareceu prudente inventar uma desculpa para sair. Disse que precisava pagar algumas contas para minha mãe. Antes da porta fechar-se atrás de mim, fiz a coisa mais temerária de que me lembro:

- Posso buscar você amanhã?

- Se quiser...

Ah, que alívio. Eu havia conservado minha Astrid. Tenho certeza de que a nórdica não acreditou que eu havia comprado aquela moeda, pois sabia que eu não tinha dinheiro para isso. Para se ter ideia, comprei agora, nesta passagem pela cidade, na feirinha que acontece aos domingos no vão aberto sob Museu de Arte de São Paulo, a mesma moeda por trezentos e cinquenta reais. Passaram cinquenta anos para que conseguisse repor. Em nenhum momento, porém, me arrependi do gesto. Em nenhum instante. Teria presenteado com o que tivesse. Não foi, porém, pela moeda em si que ela me perdoou, embora por conta do orgulho caprichoso eu não tivesse pedido perdão. Ela entendeu que eu havia dado a coisa que tinha de mais valor para resgatar a pessoa que eu tinha de mais valor. Ela entendeu. Também não acreditou que eu iria pagar conta para minha mãe. Apenas julgou que o constrangimento estava de bom tamanho para reparar o gesto tolo. Sabíamos, agora, o quanto representávamos um para o outro.

Poucas foram as vezes que nos encontramos fora do percurso entre escola e casa. O fato de estudarmos em horários diferentes tornava nossa relação parecida com a do Sol e da Lua. Finais de semana ela ia para o sítio do tio, que soube mais tarde tratar-se de irmão do pai. Não lamentávamos, pois o que pouco que tínhamos era o bastante para alimentar uma relação muito importante para ambos. Saímos juntos em alguns feriados de meio de semana. Fomos a cinemas, na época abundantes na região central de São Paulo, e a exposições de arte, sempre gratuitas. Não tínhamos dinheiro e nem idade para teatros. Minha mãe, que declaradamente tinha simpatia por meu vínculo com Astrid, dava-me dinheiro para pagar os ingressos e comprar pipocas. Não precisávamos mais do que isso. Afinal, tínhamos a nós.

Trocávamos livros, discos, e textos que tratavam da história da cidade de São Paulo. Estávamos o tempo todo presentes um na vida do outro. Mesmo em meus devaneios não conseguia ver-me sem Astrid. Qualquer que fosse o cenário e o enredo das mais diversas fantasias, e lá estava eu buscando a nórdica em algum lugar. Eu cuidava, protegia. Fazia isso também na realidade cotidiana, como quando a cavalaria dispersou com cassetetes passeata de estudantes na avenida Ipiranga, que protestavam contra a ditadura militar instalada no país. Em meio a violência indescritível, e sem refúgio, entrei com a lourinha na entrada de um prédio que havia fechado as portas internas, e fiz de meu corpo franzino um escudo valente. Nada nos aconteceu. Não poderia ser diferente com Pedro e Astrid.

A situação que se mostrava estável, porém, foi ameaçada no final de tarde de um sábado, quando minha mãe entrou em meu quarto com uma carta aberta na mão. Contou-me que era de meu pai, querendo que eu fosse continuar meus estudos em Paris e morar com ele. Ela estava animada com a notícia, mas eu não. Afinal, meu pai era uma história sem nome e sem cores. Embora tivesse desejo de conhecer outros países, nunca me ocorreu viver em nenhum deles. Além, e mais importante do que isso, do fato de eu não querer apartar-me de minha mãe, e tampouco de Astrid.

Minha mãe, entretanto, via-me visitando o Louvre, morando no Quartier Latin, passeando às margens de la Seine, estudando no Collège de France e sabe-se lá mais o que. Como bem a conheço, certamente embalada, também, pela ideia de o filho viver na cidade luz, e distante da ditadura no que chamava de quintal dos fundos dos Estados Unidos. Como notou que eu não havia ficado propriamente entusiasmado com a notícia, resolveu dar tempo para que fosse a ideia fosse assimilada.

- Bem, é um convite. Algo sobre o que pensar. Vou deixar a carta com você.

Deixou e saiu. Fiquei olhando sobre minha escrivaninha aquele manuscrito e o envelope com listas azuis e vermelhas nas bordas laterais. Tomei nas mãos e fui ver mais de perto, manusear... Uma caligrafia elegante, em tinta azul, e terminada por Henry.

- Ah, chama-se Henry.

Nem isso eu sabia dele, mas também nunca tive curiosidade. Vez ou outra, quando muito, como a de conhecer o sabor de uma fruta exótica de que se ouve falar. Nem imaginava como ele poderia ser. Letra elegante, entretanto. No restante, de pouco me servia a carta ali deixada, pois a exemplo de norueguês não lia e não entendia francês. Reconheci meu nome em três ou quatro trechos, mas apenas isso. Dobrei os papéis e guardei na gaveta do móvel. Não se falou mais nisso. Na segunda contei esse episódio para Astrid. Foi quando ela soube de meu pai, da gravidez de minha mãe, etc. Ouviu com atenção e ao final de minha fala perguntou:

- E o que você pretende fazer?

- Nada.

E era isso mesmo. Eu não pretendia fazer nada em relação a isso.

Astrid e eu gostávamos de passear no jardim da Luz e no parque da Água Branca. Íamos mais à Luz por ficar perto de nossas residências, mas fizemos até piquenique na Água Branca. Minha mãe e a mãe de Astrid preparam os sanduiches que levamos em cestas de vime. Um dia ensolarado, quente, luminoso. Muito bonito. Depois de passear pelas ruelas, observar as plantas e os pequenos animais soltos pelo parque, nos sentamos em um banco sob a sombra de uma árvore enorme, fizemos nosso lanche e lemos parte de O Muro, livro de Jean-Paul Sartre - a época ainda em vida - desta vez por indicação de minha mãe, e que o comprou para que eu presenteasse Astrid. Agora nos alternávamos na leitura de alguns dos cinco contos do livro, ao menos naquela edição, dos quais O Muro era um deles, o primeiro. O conto narra a experiência existencial de três prisioneiros nas masmorras de Franco, na guerra civil espanhola, então sabendo que seriam executados na manhã do dia seguinte. O muro do fuzilamento... Não apenas esse, porém. O muro que separa a vida da morte, que separa a pessoa de outras, que separa as coisas e a nossa consciência. Minha mãe falou-me um pouco sobre existencialismo, e eu estava compartilhando com Astrid. Tenho certeza de que não entendemos a questão filosófica do existencialismo, talvez nem mesmo identificado sua presença nas revelações dos personagens, mas pensávamos, refletíamos sobre elas, e lembro-me de nos encantarmos com algumas passagens. Filosofávamos, enfim. Lembro-me de termos compreendido que a vida está repleta de muros, que existir é caminhar entre muros, inclusive os interiores.

Se eu dei as costas para a ideia de Paris, minha mãe e Henry não haviam dado. Desta vez apelaram para a imaginação por meio de meus sentidos. Henry enviou uma coleção de fotos, que minha mãe fez questão de mostrar, uma a uma, em meio a comentários empolgados. Vistas internas e externas do apartamento de Henry que, como minha mãe, se mantinha solteiro. Imagens da escola na qual lecionava literatura, e onde pretendia que eu estudasse. Imagens dos alunos e alunas da escola. Do comércio das ruas no entorno do prédio de seu apartamento. Dos pratos, dos doces, dos sorvetes. Como da vez anterior minha mãe deixou todo esse material sobre minha escrivaninha, recomendando que eu apreciasse com calma. Bem, ela e meu pai estavam mesmo executando um plano de sedução. Hum... Estaria ela pensando em voltar para Paris e talvez viver com Henry, de onde a necessidade de minha ida? Afinal, estavam ambos desimpedidos. Só havia um jeito de saber: fui até seu quarto e perguntei:

- Você está pensando em se mudar para Paris?

- Imagina. De onde tirou essa ideia? Gostaria que você se mudasse, pois terá mais oportunidades do que aqui. Além disso, vivendo com Henry, que afinal é seu pai, eu ficaria tranquila, pois sei que estaria em segurança.

Sai satisfeito com a resposta e voltei para meu quarto, onde deitado fiquei vendo as fotos. Henry lembrou-me um pouco o pai da nórdica. Mesmo típico físico, e do qual também eu não escapava. Parecia simpático. Um bairro residencial, repleto de sobrados, mas sem prédios, cortado por ruas estreitas com pouco movimento. A escola tinha certa semelhança arquitetônica com o Caetano de Campos, mas alunos não faziam uso de uniformes. Tudo muito parisiense, tal como nos filmes e revistas, e que forma nosso imaginário.

Mostrei para Astrid, que fez um comentário e uma pergunta:

- Você se parece mais com seu pai do que com sua mãe.

- E o que você pretende fazer?

- Ora, nada!

Eu não pretendia nada. Queria que as coisas ficassem como estavam. Morando com minha mãe naquele apartamento, estudando ginasial no Caetano de Campos e flauta com o maestro Alfredo, e sentir o tempo todo a presença da lourinha.

Sentados no murinho de costume, Astrid disse que também ela queria contar-me uma coisa. 

- Tenho uma tia que reside em Oslo, irmã de minha mãe, e que insiste para que eu me mude para lá morar com ela e estudar em alguma escola local.

- E seus pais?

- Eles aprovam a ideia de minha tia, pois dizem que terei mais oportunidades na Noruega e região.

- E você? O que acha?

- Eu estive para ir, mas mudei de ideia depois que ingressei no Caetano de Campos e começamos a conviver. Eu não saberia o que fazer lá. Não sei se quero estar lá. Somos estrangeiros, lembra-se?

- Sim, somos, mas estrangeiros a dois formamos uma nação, respondi.

Sorrimos diante da descoberta que estávamos em situação muito assemelhada. Estávamos ligados pela unidade que havíamos construído a partir de nós mesmos.

A vida continuou na mesma corrente até que algo incontornável, um muro imenso se ergueu a nossa frente. O pai de Astrid, que em São Paulo representava uma empresa norueguesa, foi chamado de volta para a matriz. Sendo assim, a lourinha não tinha outra escolha que não fosse mudar-se para Oslo.

Lembro-me do dia que contou isso, sentados na mureta em frente ao prédio, como acontecia no final da manhã de todos os dias. Ficamos muito tristes, mas tomados pela sensação de impotência, como os prisioneiros de O Muro que seriam fuzilados na manhã do dia seguinte. Nem mesmo podíamos dizer que estávamos sendo atropelados pelo imponderado, pois era uma possibilidade na vida de um homem que se mudou com a família para pais distante, mas na condição de empréstimo. O que podem fazer dois adolescentes diante de uma força dessa magnitude?

Choramos. Choramos muito.


Astrid se foi para Oslo nos primeiros dias do mês de julho, e eu para Paris nos últimos dias do mesmo mês. Até hoje sou apaixonado pela viking, pois isso não há muro que impeça. 


Rogério Centofanti

São Paulo - 22 de abril de 2018