terça-feira, 15 de maio de 2018

O Pensador do Cárcere


Olho aberto ouvido atento
E a cabeça no lugar
Cala a boca moço, cala a boca moço

Calabouço – Sérgio Ricardo

Boa parte das generalizações que fazemos sobre pessoas de um dado grupo, de uma dada cultura, se devem aos contatos que mantemos com membros desses grupos ou culturas, ainda que circunstancialmente, e pelos estereótipos sobre elas formados por seus interpretes, em particular da literatura e das artes cênicas. Esses contatos mediatos ou imediatos formam uma matriz em nosso imaginário, e a partir dela julgamos saber, conhecer essas pessoas, ainda que por representações meramente caricatas.

Foi em boa parte pelo prazer da escrita, desse exercício de intérprete empírico ou ficcional da vida, que em dado momento me interessei por pessoas que vivem em cárceres, da mesma forma que já havia me interessado por pessoas que vivem em outros ambientes não muito usuais. Isento de qualquer preconceito de natureza moral, ocorreu-me que pouco ou nada sei dessas pessoas, exceto aquilo que chega a todo mundo pelo viés dos maniqueístas de plantão. Pelos “do bem” que interpretam os “do mal”, por promotores de Justiça e apresentadores de programas sensacionalistas das rádios e TVs, ou seja, pelos que vivem às custas do medo que promovem na sociedade para que possam se apresentar como guardiões e repositores da lei e da ordem.

Diferente do que ocorre com outros grupos, os membros da comunidade carcerária pouco se expressam. Não escrevem, se escrevem não publicam, e se publicam não sei onde encontrar suas obras. Afinal: não têm o que dizer, não querem dizer ou não sabem dizer? Excluem-se ou são excluídos?

Foi por imaginar impossível a inexistência de vida inteligente e sensível atrás das grades que resolvi apresentar-me a essa comunidade, na esperança de encontrar algum membro disposto a manter um diálogo, do qual pudesse talvez resultar alguma publicação honesta.

Pouco me importava os motivos que teriam conduzido essa pessoa para as grades, suas aventuras e desventuras, mas apenas seu pensar, seu sentir, sua maneira de enxergar e de interpretar o mundo. Fiz isso despido de ingenuidade, de medo e de hipocrisia, pois sei que a diferença do esqueleto escondido no armário do preso e no do livre, é o fato de que o do preso foi descoberto. Como todo mundo, também eu vivo cercado de delinquentes travestidos de vestais, e sei muito bem disso. Um ou outro pensa que engana.

Não tinha e não tenho nenhum interesse em análise comportamental de presidiários, e muito menos de criminosos, tal o nome que se atribui aos recolhidos aos cárceres. Já havia pesquisado e tomado a psicologia contida na criminologia de final de século XIX e início de XX como tema de pesquisa e aulas, a época que ainda lecionava. Estava até mesmo esboçando escrever um livro de caráter histórico sobre aquele efervescente período. Agora queria uma amostra do pensar e do sentir do encarcerado. Apenas isso. Despretensiosamente isso.

Como não conheço pessoas atrás das grades, resolvi escrever uma carta ao mais famoso de todos os presos, me oferecendo para produzir sua biografia. Afinal, na condição de celebridade haveria interesse público na aquisição de livro com informações a seu respeito. Certamente eu frustraria o leitor interessado em novela policial, mas até essa consciência tornava minha iniciativa motivadora.

O famoso interno respondeu, depois de certo tempo, afirmando que não tinha interesse em autobiografia e biografia autorizada, pois tinham sabor de propaganda, de autopromoção, enfim, de coisas que rejeitava. Fiquei surpreso com a demonstração de renúncia à vaidade, mas como medida compensatória enviei-lhe cópia de uma de minhas crônicas, mesmo porque se dizia leitor compulsivo. O texto correto e elegante da mensagem que me foi dirigida não deixava dúvida de que se tratava de pessoa familiarizada com as letras.

Como o enredo da crônica enviada se passa no centro velho de São Paulo, mesmo se tratando de ficção o interno enviou-me impressões, assim como alguns relatos do passado sobre experiências de vida na mesma região, e foi dessa forma que demos início a uma troca de correspondência que durou um bom tempo.

Falamos um pouco de cada coisa, mas alguns temas se mostraram mais destacados, principalmente pela relevância existencial e social. Diria que foram tratados com a devida atenção e profundidade. Um deles foi a liberdade. Afinal, para nós, os chamados livres, fica quase sempre a impressão que presídio é ambiente fóbico, e em constante iminência de caos e barbárie, tendo em vista as características de seu público residente e de seu clima análogo ao de panela de pressão. É o que assistimos nos filmes, nas novelas, e lemos nos romances policiais. É a ideia da personificação do próprio inferno.

O cárcere se define como um ambiente de confinamento, onde pessoas convivem em meio a restrições de movimentos e de condutas. Nessa medida se assemelha a um asilo, hospital, convento, quartel, manicômio, escola interna, mas com maior radicalidade nos limites. Confinamento com vistas a punir, a vingar, ainda que o discurso oficial seja o de recuperar.

Lembrei-me, e contei ao interno do que disse Foucault sobre os alienados, ao tratar da história da loucura. Eram entregues a capitão de um navio no cais da cidade onde viviam, para que a soldo fossem embarcados e levados ao mar. No porto seguinte, o mesmo capitão era remunerado para não os desembarcar, e ainda para conduzir mais uns tantos para o mesmo destino. Afinal, onde alguém pode ser mais enclausurado do que em um navio em pleno oceano, de onde não têm para onde fugir? Não é novidade, na história, a existência de navios-presídios. É um exílio.

Observou o interno, em comentário, que a bordo daquelas embarcações não se podia falar dos loucos como homens livres no sentido da escolha, embora fossem e continuem sendo os representantes naturais e legítimos da liberdade.

O louco ameaça justamente por não ter verniz, por não ser hipócrita. Ele não se rende às convenções, diz o que tem vontade de dizer, faz o que tem vontade de fazer. É justamente esse exercício de liberdade que as pessoas procuram com o consumo de drogas, sejam licitas ou não. É a essa coragem de ser que o “cara limpa” não se arisca à entrega. Lhe falta coragem. A droga liberta a pessoa de seus próprios controles. Apenas o permitir-se à manifestação da alegria dos espontâneos, dos livres, e eis o suficiente para incomodar os reprimidos de salão.

Concordei com ele. Afinal, e quando cruzava com “noias” na região central de São Paulo, fui assediado por um que queria moeda para almoçar no Bom Prato. Sem nenhum motivo aparente, e talvez intuindo que eu poderia entender, disse-me que “noia” era o normal, que precisava entregar seu tempo de vida para a acumulação de riqueza do outro, e apenas para se abrigar, vestir e comer. Pensando bem, uma paranoia dos “normais”, mas de fato uma transgressão à liberdade. De mim queria uma moeda, e a antena telescópica de meu carro para com ela fazer a haste do cachimbo para fumar o crack. Nada de alienação, portanto.

O interno lembrou-se de outra figura icônica da liberdade: o andarilho. De fato, e em caráter totalmente individual, a pessoa se liberta de tudo que tem sabor de prisão – família, propriedade, emprego, bens de consumo –, se lança nos caminhos, a pé, sem eira e nem beira, sem um ponto de chegada, e apenas anda. Dorme pouco onde pode, acorda cedo e anda. O andar não é meio, mas fim. Afinal, se o mundo é imenso, se há tanto para ver, o que pode ser a existência que não um perpétuo caminhar?

Nos dois casos, discutimos a dimensão da liberdade na esfera do ser, e não do ter. Louco, andarilho ou ermitão, e o que observamos são figuras que respiram o momento, como os pássaros, que nada sabem além do que experimentam, do que vivenciam no instante. Instigante pensar que a liberdade não se compra, mas se vende.

Condenado há muitos anos de cárcere, disse-me o interno algo de bastante valor:

Para que serve o direito de ir e vir se a pessoa não conduz a si mesma, isso é, se não transita na liberdade dos próprios pensamentos e sentimentos. Não me sinto preso, pois meus pensamentos e sentimentos são absolutamente livres, não têm carcereiros e nem donos. Podem me trancar em uma solitária, mas meus pensamentos e sentimentos não podem ser aprisionados nem mesmo pela mais alta das muralhas. Não há cercas para a imaginação e para a reflexão sobre o que quer que seja. O ir e vir interior é que define os movimentos da liberdade do homem.

Penso da mesma forma. Não há dimensão espacial para o pensar e sentir. A liberdade plena é possível e nada custa para quem se guia pelo querer – como louco, andarilho e ermitão. Por essa perspectiva, livre é apenas o que pode exercitar-se na condição de dono de si. Do que se conduz pela luz dos próprios pensamentos e sentimentos. O interno enxerga e expressa melhor do que eu esse quadro:

Basta dez minutos - se necessário tanto tempo - de prosa com esses exemplos de cidadania, mártires da renúncia aos desejos, para se encontrar com suas poderosas limitações: crendices, superstições, preconceitos, princípios, moralismos e principalmente medos. Eu não trocaria minha “prisão” pela “liberdade” deles. Gente incapaz de pensar com a própria cabeça, de reconhecer e permitir em si um sentimento que não seja pré-definido por seus freios interiores. Não é diferente dentro do presídio, e me esforço para fazer ver aos companheiros que é difícil fugir da prisão interior, pois está incrustrada na maneira de conceber a si e as relações. Muros tatuados na alma. A essa gente nem mesmo a imaginação está permitida.

Interessante é que contra a ação do tráfico da narcose coletiva ninguém se insurge. Empresas contratam head makers para que docilizem seus empregados de modo a torná-los mais produtivos pelos poderes de manejo do significado das palavras. Chamam a esses espetáculos ilusionistas de eventos motivacionais. E assim prestidigitadores convencem empregados que são colaboradores, chefes que são líderes, grupos que são equipes, até que as relações de trabalho sejam modificadas a partir das novas mentalidades, embora as coisas continuem sendo exatamente as mesmas: empregado é empregado, chefe é chefe e grupo é grupo. Doutrinação na esfera da ideologia empresarial não é pecado nem crime.

Religiosos de todos credos e cores invadem as casas por rádios e TVs, alguns próprios, inclusive, com promessa de cura para todos os males, que vão do câncer até a pobreza, passando por toda gama de desgraças. O preço? Dizem que apenas abraçando o deus que apregoam, além do pagamento do dízimo, é claro. Ao fim e ao cabo, o canceroso talvez encontre cura nos hospitais especializados, e o pobre continua mergulhado na mesma pobreza, apesar do terno novo e barato para os cultos de finais de semana. Doutrinação na esfera da ideologia religiosa não é pecado e nem crime.

Políticos de todos tamanhos e cheiros saem das sombras de quatro em quatro anos, com promessa de cumprimento e melhoria nos direitos sociais. Ah, haverá moradia, saúde, educação, transporte e trabalho para todos, e os corruptos serão cozidos no caldeirão do satanás e no fórum do midiático do juiz de Curitiba. O preço. Querem o voto do crédulo, da mesma forma que pastores os dízimos desses mesmos desencontrados de si, motivo do apego à miragem de algum salvador. Doutrinação na esfera da ideologia política não é pecado e nem crime.

Não é diferente no cárcere, e isso é demonstrado pelo interno:

Não é sem razão que os presídios estão repletos de religiosos e de conselheiros. São os carcereiros de almas, abutres que se instalam no modo como os presos enxergam a si mesmos, não raro pelos óculos de pensamentos e sentimentos de culpa. São os defensores da naturalização do binômio crime e castigo. Promotores do rebaixamento existencial e da sublimação que torna os presos reféns da impotência. Pior é que essas drogas abstratas entram pela porta da frente dos presídios, patrocinadas pelo Estado, e ainda com sobra de repressão para quem se insurge contra essas ideologias da docilização. Pelo que me dizem não é diferente na sociedade aberta, e que a ação insidiosa dessas forças – hoje potencias com direito a bancada no parlamento – é concentrada sobre os mais pobres, sobre pessoas de corpos resistentes, mas de vontades e mentes débeis. Não é diferente no interior da vida social dos cárceres. Convencem o infeliz que ele não é ele, mas a manifestação de um espírito da pobreza e da delinquência que lhe tomou o corpo. Fizesse eu uma coisa dessas, e estaria respondendo a processo por estelionato.

O lado mais pernicioso desses zumbis inoculados pelas ideologias – empresariais, religiosas, morais e políticas – é que proliferam feito baratas. Como nas lendas de vampiros, onde a vítima do príncipe das trevas se transforma em vampiro de segunda classe. Na atual versão do pós-vampirismo as vítimas se transformam em soldados da crença, e saem à caça de pescoços desavisados. Acreditam que têm missão salvadora e assim se revestem do direito de invadir os espaços dos outros, e neles professar o discursinho rançoso, chão e mesmeiro de seus slogans. Imaginam-se no direito de julgar e de apontar caminhos. Quem precisa disso? Donos de si evidentemente que não, pois guiados pelos próprios norteadores. Livres são egocêntricos no sentido que se movem a partir das próprias percepções, convicções e afetividades. Porém, como sabem identificar e respeitar liberdade no outro, não invadem.

Contou-me o interno que a maior vergonha que sentiu na vida por conta de se meter a moralista e conselheiro aconteceu no passado distante, numa famosa praia de São Luiz, no Maranhão. Disse que tomava sol quando dele se aproximou uma menina de aproximados quatorze anos se oferecendo para um programa. Indignado com a cena, pois coisa de pedófilo, perguntou à moleca se não tinha jeito melhor de ganhar a vida. Ela disse que poderia ser empregada em casa de família, em troca de cama e comida, fazendo todas as tarefas da casa sem descanso em dias santos e feriados, suportando as maldades e frustrações da patroa, e a noite se deitando de graça com o patrão e com os filhos dele.

Nunca me jogaram na cara tanta realidade com tão poucas palavras. Se não servia, eu não tinha direito a pensar nada, e muito menos a dizer alguma coisa. Até hoje sinto vergonha de mim.

Disse-me que o melhor meio de sobreviver no cárcere é cuidar da própria vida. Afinal, a ninguém interessa saber o motivo pelo qual as pessoas ali se encontram. Cada qual tem a sua cruz para carregar, e isso é tudo que precisam saber uns das outros. Assim, e mesmo na inevitável promiscuidade por conta da superlotação, cada um cuida de si. Disse-me que bem antes dessa campanha em vigor na sociedade civil pelo reconhecimento dos negros e homossexuais, isso já era praticado no cárcere. Ali as pessoas são o que são. Quem cuida de si presta um grande serviço pelo coletivo. Como não há no cárcere espaço físico de sobra, os presos zelam pelo espaço vital, pois esse não tem limites, e nem barreiras, exceto as acatadas pelo próprio vivente.

Dividi com ele a memória de minha única experiência de reclusão, se assim podia dizer, também vivida no passado. Ocorreu na juventude, quanto resolvi abandonar os estudos e viajar trabalhando embarcado em navio mercante. Incrível como no oceano, e em plena travessia, aquilo que parece uma enorme embarcação atracada no cais, não oferece outra impressão que seja a de um pequeno barco. Dias e noites vendo e ouvindo mar, sentindo cheiro de diesel, e sujeito aos movimentos constantes. Seis movimentos para ser exato, e ao mesmo tempo, de onde o andar de bêbado pelo convés. Dias e noites absolutamente iguais. Nada mais monótono, pois nada há para ver em mar aberto que não seja mar aberto.

Mais interessante foi descobrir que a tripulação, à época de 12 homens, não convive. Não interage. Como a bordo se trabalha em quartos – seis quartos de quatro horas cada em um dia completo -, poucas eram as oportunidades de cruzar com algum oficial de náutica, de máquina ou mesmo com a marujada. Apenas no horário do almoço, em copas separadas para oficiais e moços de convés, e em pleno silêncio. Depois todos sumiam para suas atividades ou se fechavam em suas cabines, onde ninguém entra, exceto a convite, mas que nunca acontece. A cabine é o castelo onde cada um exercita a liberdade. Incrível, mas a pequena cabine é onde acontece a vida no imenso oceano, e não no navio. Com o tempo a embarcação me parecia cada vez menor, e a cabine desnecessariamente cada vez maior. Tinha espaço e mobílias desnecessárias. Afinal, precisava apenas do suficiente para acomodar minhas reais necessidades. Interessante como, sem vitrines para consumo, descobrimos que de coisas pouco precisamos.

Bem, essa foi minha aprendizagem de convívio comigo mesmo, assim como de respeito ao espaço dos outros. Nunca perguntaram nada sobre minha vida, e nem eu sobre a de qualquer um deles. Sei apenas que Jonas, o mulato, tinha mulher na Holanda porque me mostrou o nome dela tatuado no braço, e Chumbinho, o velho, um filho formado em medicina no Rio de Janeiro, as custas de toda a vida “batendo ferrugem no convés”, pois foi o que me disse ao mostrar a foto da família. Depois de dois anos embarcado, e só consigo me lembrar desses dois episódios de convivência. Minha cabine também era meu castelo, onde me trancava e escrevia quando não estava em atividade. Escrever é um mergulho na própria interioridade e de nada se precisa para isso, que não seja papel e lápis. Escrever é um encontro do escritor consigo mesmo. Jonas era vizinho de cabine e tocava violão. Eu ouvia. As vezes cantava. Eu ouvia. Entendo bem, portanto, quando o interno diz que não se sente preso nem em solitária, como também que a sobrevivência no cárcere depende de cuidar da própria vida. Quem está consigo nunca está solitário. 

Não me causou nenhuma estranheza a travessia solitária de Amyr Klink, muitos anos depois, da África para o Brasil, a bordo de um barco a remo. Compreendi o relato de ter permanecido a bordo durante certo tempo, quando da chegada a praia de nosso litoral, antes de desembarcar nas areias.

O interno gostou da história, e perguntou pelo que os tripulantes se interessavam. Respondi que deduzia a partir do que traziam a bordo quando em algum porto: bebidas destiladas, artigos de sex shop, filmes pornográficos em vhf – tinham TV e vídeo nas cabines -, cigarros, perfumes e certamente um ou outro narcótico. Havia quem trouxesse livros, discos e até mesmo obras de arte. Havia de tudo, mas eu não sabia o quanto disso era muamba a ser depois comercializada no Brasil. Creio que bebiam em suas cabines, assistiam vídeos, talvez se drogassem com cocaína ou mesmo ópio, mas fumavam o tempo todo.

O interno comparou ao cárcere, lembrando que deveria ser a mesma coisa com a maioria das pessoas na sociedade civil. Concluiu com humor:

Para pessoas como nós nada melhor do que uma pequena ilha tropical no meio do oceano, com água doce, mas sem canibais ou qualquer outra ameaça humana. Se possível com papeis e lápis para registrar o convívio exclusivo com a própria reflexão e imaginação, para exercer a liberdade do pensar e do sentir.

Certamente lhe ocorria o romance Robinson Crusoé, de Daniel Defoe.

Um segundo tema que foi motivo de muitas reflexões e trocas de correspondência foi educação e conhecimento. Afinal, é o que mais se diz faltar para desenvolver o país e recuperar os criminosos largados nos cárceres. O que mais se diz, o que menos se compreende e, como consequência, o que menos se pratica, principalmente por parte daqueles que se dizem especialistas e profissionais de educação. Da instrução com certeza, da educação, porém, com raras exceções. Também nesta discussão eu e interno encontramos muitos pontos de identidade e concordância. Essa discussão nasceu do fato de ter dito que fui professor durante muitos anos. De ter sido profissional de ensino, ainda que não de educação, mesmo porque faz tempo me parece que educação é um fazer, uma construção de quem se elabora, e não produto de alguma ação exterior. Uma elaboração de si. O interno tinha ideias próximas.

Dizem que a melhor ferramenta para “recuperar” o preso é a educação. Aliás, diria que para humanizar qualquer pessoa pelo lançamento de luz sobre os cantos sombrios da vida. Mas do que falam? Eu não estou falando de instrução, de “matérias”, de aulinhas disso ou daquilo, mas de educação, isto é, do caldeamento de saberes que possam de fato formar o modo da pessoa perceber a si, os outros, o mundo, e sua posição diante desse quadro complexo e mutável da existência. Por conhecimento falam da coletânea de informações a serem depois papagaiadas nos encontros sociais, na vulgaridade superficial das redes, e nas que podem ser convertidas em operações a serem oferecidas no mercado, no mercado de trabalho, no mercado de gente. É com esse entendimento de educação e de conhecimento que pretendem preparar os presos para que possam retornar ao seio da sociedade, junto, é claro, aos insuspeitos conselhos dos abnegados moralistas e crentes. Eis o caminho, no projeto do Estado, para salvar os que se desviaram da senda da retidão. E eu é que sou cínico.

Não, nada de cínico. Apenas exercitava a inteligência crítica sobre tudo o que havia se tornado status quo sagrado da sociedade. Questionar a educação e o papel quase sacerdotal dos professores é um sacrilégio, assim como o papel sacro santo de promotores, juízes, delegados e outros entes tomados como símbolos perenes da democracia, seja lá o que se entenda por isso. Professores instruem, na melhor das hipóteses, mas quase nunca educam. Aliás, na maior parte das vezes nem mesmo sabem o que seja educação. Os guardiões da lei cumprem e fazem cumprir as leis na melhor das hipóteses, mas não fazem nada que tenha a menor semelhança com o que se possa chamar de justiça, seja lá o que por isso se entenda. São crenças acéfalas que se perpetuam por práticas igualmente acéfalas, mas que se arrastam pelo tempo nas repetições e repartições da burocracia institucional.

Falo de educação, de transformação da pessoa promovida no próprio interior do vivente. Isso não acontece no cárcere, e acho que tampouco fora dele. Algo com tal pretensão, mas apenas enquanto simulacro de transformação, é delegado aos pastores e outros comerciantes de ilusões, mas nunca a pessoas que lidem com ideias maiores, com o mundo dos conceitos, e não com presos. Tampouco delegado a pessoas que lidam com sensibilidade criativa, e não com presos. Certamente sairiam melhores do que entraram, melhores perante si mesmos, mais elaborados, mais sensíveis, mais donos de si se convertidos em educadores de si mesmos. O que se tem é a prática de expor os presos a desgastantes “aulas” sobre “matérias” as mais diversas, talvez com o objetivo de convence-los que são ignorantes em relação a um monte de coisas, menores do que seus algozes, talvez de demonstrar que os caminhos do “saber” são árduos, pois outra finalidade não se encontra. Com pouca escolaridade, e o pouco que sei aprendi às custas da própria curiosidade em pesquisas na biblioteca do presídio.

E aprendeu muito. Diria que mais e melhor do que muitos “educadores” que conheço, incapazes de educar a si próprios, ao menos no sentido que eu e o interno entendemos por educação. Vivemos guiados pelo senso comum e pelo bom senso, pois inseridos em mundo cujas relações se dão com base no senso comum e no bom senso, mas é difícil imaginar e ainda mais aceitar “educadores” que guiam o entendimento do mundo a partir de juízos sobre tais critérios. Imaginam-se dotados de conhecimentos pelo fato de serem leitores ou expectadores assíduos dos noticiários. Imaginam que informações sejam sinônimo de conhecimento, da mesma forma que as aulinhas com as quais ganham salário sejam sinônimo de educação.

Contei a ele a experiência desagradável que estou tendo agora, com uma “educadora artística”, quando depois de velho resolvi frequentar um curso de desenho artístico. Não é que a “educadora” censura a mim e meus colegas quando nos aventuramos a criar qualquer coisa que não tenha sido por ela exigido? E isso em escola de arte, onde o mínimo que se pode esperar seja justamente o exercício da liberdade de criação. Por que isso? Porque ela não cria. É “educadora”, e não artista. Adora alunos que entram mudos e saem calados das aulas, e que não se desviam um milímetro do que lhes é exigido. São tecnicamente bons, mas suas obras nada têm que se possa chamar de criação.

Contei também das dificuldades que tinha, quando professor de Psicologia em cursos superiores de Psicologia, de fazer com que meus alunos apreendessem (sim, com dois “es”) a lógica experimental, mais do que os resultados de pesquisas experimentais. Que filosofassem sobre os pressupostos dos princípios do pensamento psicológico. Nem mesmo conseguia, muitas vezes, fazer com que soubessem o que eram pressupostos. Queriam técnicas, aplicações, de onde não raro deles ler e ouvir “psicologias” tiradas do populacho, do bem senso, do senso comum, dessas que assistimos todos os dias na boca dos “especialistas” alternativos das TVs.

É o saber tomado como sinônimo do que se pode aplicar. Também o conhecer como sinônimo de operação, embora sem a menor noção dos saberes que estão por trás desses fazeres. Conclusão disso é que a criatura sai, depois de cinco anos de curso, exatamente do jeito que entrou. Não consegue refletir sobre o comportamento – nem experimental e muito menos filosoficamente. Decora, papagueia alguns princípios e conceitos, mas sem a menor condição de saber do que fala.

Nesse sentido, o interno sabia muito mais do que muitos letrados que eu conheço. Tinha o mérito de lidar com dúvidas mais do que com certezas, não tinha a presunção do saber embora soubesse, não tinha preguiça de investigar, e apreendia saberes, pois capaz de incorporá-los, como alimentos ao organismo. Havia descoberto o saber como poderosa e talvez única forma de transformação: a transformação de si, única da qual poderia reclamar autoria, e da qual não poderia ser desalojado ou desapropriado. Descobrira que saber que não se transforma em apropriação é apenas informe. Saber não se compra, não se adquire, se apropria pelo esforço, pela dedicação, e por meio do emprego de capacidades intrínsecas: o pensar e o sentir.

Como não temos educação nem na sociedade aberta, no imenso cárcere a céu aberto, certamente o Estado precisará construir um número ainda maior de cárceres do que o atual - que não é pequeno -, apenas para dar abrigo a horda de ignorantes, inclusive escolarizados, que aumenta assustadoramente. A maior parte dos presos tem por motivação de ingresso no cárcere a própria ignorância. Criar mais escolas? Para que? Apenas para tirar crianças das ruas antes que sejam vítimas da ignorância, isto é, antes que sejam recolhidas aos presídios?

Pode-se concordar ou não com as ideias do pensador do cárcere, mas fato é que pensa mais e melhor do que vejo, ouço e leio dos moralistas, civilistas e justiceiros, que gostam de ver a si próprios como exemplos de virtude. Pode-se também discordar das minhas, mas isso não tem importância. Quem escreve presume a existência de um leitor, mas como diz Michael Foucault pretende apenas “mostrar-se, dar-se a ver, fazer aparecer o rosto próprio junto ao outro”, e isso o interno também sabe ao dizer que aprecia escritores. Aqui também ele se tornou um deles. Ficou-me a impressão que como eu também ele não tem muito com quem dividir o lado mais elaborado de seu interior.

Fato é que o pensador do cárcere sabe construir ideias, como um pedreiro com tijolo a tijolo constrói uma igreja, e isso é bem mais do que se encontra nestes dias que o saber se confunde com um punhado de opiniões que não se sustentam a não ser pela mera afirmação delas. Tratamos de muitos assuntos e sobre eles trocamos muita correspondência, mas parece de bom tamanho parar por aqui.

Antes disso, dizer que quando diante de suas cartas, escritas a mão em folhas de caderno arrancadas do espiral, me trouxe satisfação e orgulho, pois soube por ele que fazia isso no período da tarde, dentro de horário consentido, e nas mesas da biblioteca do presídio. Lamentava não poder ler e escrever em sua cela, principalmente a noite, quando tudo fica silencioso no cárcere. Por que isso é negado a ele e aos demais? Para fazer parte do quadro de mesquinhez da punição, da vingança, para que “aprendam”, seja lá o que queiram dizer e obter com isso. De qualquer modo, e como me disse, tinha o tempo do castigo para pensar no que eu havia escrito, e no que iria ele escrever.

Quem é o pensador? Não importa. Não interessa a mais ninguém que não sejamos nós, os correspondentes. Ele soube que eu iria escrever uma crônica sobre nossas conversas, e em nenhum momento pediu ou insinuou que devesse identifica-lo. Tratou-se o tempo todo de uma relação de respeito e confiança mútua. O homem é um cavalheiro. Por que as correspondências foram interrompidas? Bem, ficam alguns finais para que o leitor possa escolher o que melhor aprouver ao seu imaginário.

Assisti nos noticiários da TV que ele foi morto durante uma sangrenta rebelião no presídio. Assisti nos noticiários da TV que escapou do presídio de segurança máxima em fuga cinematográfica. Em sua última carta deu a entender que as correspondências seriam interrompidas por boicote dos agentes de segurança do presídio. Disse-me que não poderia continuar escrevendo, pois fora acometido por uma doença muito grave que restringia drasticamente seus movimentos. Simplesmente porque não tínhamos mais o que dizer um ao outro.

Rogério Centofanti
São Paulo, 16 de maio de 2018